Surtos

Todos intuímos desde o princípio da pandemia que confinar era mais gravoso do ponto de vista económico e social, mas era menos difícil do ponto de vista do controlo sanitário, do que desconfinar. No desconfinamento, mesmo que uma elevada percentagem dos comportamentos sejam, como têm sido, ponderados, responsáveis e ordeiros, basta uma pequena percentagem de incumprimentos ou coincidências infelizes, para que possam emergir surtos que exigem uma redobrada atenção para serem contidos.

O Alentejo, que no confinamento se afirmou quase como um santuário de não propagação da pandemia, tem agora, no momento em que escrevo este texto, alguns problemas para resolver. Não tenho conhecimento especializado para avaliar o risco sanitário, que não me parece elevado, mas também não tenho ilusões de que parte da comunicação sobre o que está a acontecer será marcada pela desesperada competição entre destinos turísticos para atrair visitantes.   Será assim cá dentro e está a ser assim nas polémicas decisões sobre a abertura de fronteiras na União Europeia e no mundo.

Partilho com os meus leitores, uma preocupação especial com a forma como em todo este processo devemos lidar com os adolescentes e com os mais velhos. São dois grupos de risco, por razões diferentes. Não apenas de risco sanitário, direto ou indireto, mas também de risco social e até de risco psicológico e mental.  

Os adolescentes, explicita ou implicitamente, tenderão a pensar que só têm uma adolescência para viver, enquanto os mais velhos não sabem quanta vida ainda lhes resta (ninguém sabe, mas no seu caso os estudos demográficos evidenciam uma menorprobabilidade de sobrevida). Prescindir de viver uma vida plena tem para estes grupos etários um custo muito mais elevado do que para todos os outros.

Para estes grupos em particular, penso que os as regras de confinamento deveriam ter em conta os aspetos psicológicos e afetivos que antes referi. A solução fácil d“encaixotar” estes grupos etários, sobretudo os que já vivem com poucas condições de habitabilidade no caso dos mais novos, ou em lares e residências nos mais velhos, além dos danos psicológicos que pode causar, atiça a tentação para o pequeno ou grande comportamento de risco que pode deitar tudo a perder.

Para os mais novos e os mais velhos é preciso encontrar soluções seguras, para ir deixando voltar à vida. Se quem tem conhecimento e sabedoria para isso não o fizer, muitos ficarão traumatizados e outros acabarão por pisar linhas vermelhas, que sendo más para eles, são muito negativas também para as comunidades em que se inserem.


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