Dez milhões de razões (você!)

Eis-nos em 2009, o ano de todos os perigos e de todos os desafios. Três grandes teorias mais ou menos científicas disputam o palco aos astrólogos, videntes e outros protagonistas dos tempos de recomeço. Os mais pessimistas lembram a crise de 1929 e a deflação japonesa para preverem uma década de vacas magras. Outros, concordando na profundeza da crise, baseiam-se nos novos instrumentos ao serviço dos Estados para anteverem a luz ao fundo do túnel lá para meados de 2010. Finalmente os optimistas acham que o “Homo Videns” criará novas percepções e imagens e emergirá da crise ao tocar o fundo do poço, no dealbar deste ano.

Seja como for, este será um ano em que mais do que nunca os valores têm que ser uma prática, mais do que uma retórica. Temos que ser justos e solidários. Mas temos também que compreender os novos desafios que se colocam à justiça e á solidariedade no mundo novo. Os valores éticos consolidam-se quando a sua prática inova e se adapta ao perfil dos desafios.

O maior risco social associado ao impacto da crise económica e financeira mundial é a perda de postos de trabalho. Neste contexto, políticas públicas modernas e progressistas como as que estão a ser concretizadas no nosso País devem ter como prioridade natural a sustentabilidade do emprego. Nas políticas de promoção do emprego evidencia-se de forma clara a dicotomia entre o conservadorismo focado na defesa legítima mas inglória do núcleo estático de direitos adquiridos e a visão progressista, que inova nos modelos e nas práticas, dando-lhe a resiliência e a amplitude que as circunstâncias exigem.

Do ponto de vista estrutural, o novo Código do Trabalho baseado no princípio de que uma empresa é uma comunidade de criação de valor onde a conflitualidade tem que ser regulada com equilíbrio e justiça e não um palco de “luta de classes” onde também se produz, constitui um passo importante e de enorme oportunidade. Estruturais são também as decisões de proteger sistemas produtivos consolidados ao longo de décadas e que passada a tempestade, serão pontas de lança da nossa recuperação.

A aposta na qualificação das pessoas, das empresas e dos territórios é outro antídoto seguro contra as ameaças ao emprego. Quando a maré baixar e deixar ver a economia emergente serão factores como a produtividade, e eficiência energética ou a conectividade que separarão os sobreviventes dos náufragos sem destino.

Mas o mais importante foco das políticas públicas é o seu impacto na atitude das pessoas. Na sua capacidade de resistir e de aproveitar a ameaça para quando necessário mudar de vida. A minha convicção é que no futuro a riqueza das nações se medirá pelo rácio de empreendedores económicos, sociais e políticos que embeberem o tecido social. Também neste domínio a crise é uma oportunidade. É nestes momentos que se revela a fibra de quem tem que mudar as políticas e de quem tem que mudar as rotinas, lutando contra a inércia e contra as vozes do desencanto. È nestes momentos que se vê a fibra duma nação que já mostrou quanto vale ao longo da sua História quase milenar.

Há razões para acreditar. Dez milhões de razões, poderei mesmo dizer, recordando o título de uma obra colectiva em que participei, publicada em 2002 pela Editorial Fenda. E uma dessas razões é você. Bom desempenho!
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