O Asfaltador (Cavaco, as Crianças e as Infraestruturas)

Após um longo e respeitável silêncio, o antigo Presidente da República Aníbal Cavaco Silva voltou à tona mediática por ter afirmado que Portugal não precisa de mais infra estruturas mas sim de mais crianças. Numa homenagem que lhe foi feita emSernancelhe, Cavaco precisou a sua ideia dizendo que “Portugal não precisa de mais auto estradas, gimnodesportivos ou campo de futebol” mas sim que “os poderes públicos criem as condições para que os casais tomem a decisão de ter mais filhos”.
Não é pelo facto de Cavaco Silva ter ancorado as suas governações no betão, de tal forma que se os Primeiros-Ministros ficassem para a história com cognomes como ficaram os reis, se lhe aplicaria bem o epíteto de “asfaltador”, nem por ter como Presidente da República dado cobertura ao maior plano de empobrecimento geral do País no período democrático, através da obsessão de ir além da Troika do governo Passos /Portas, que deixa de ter razão parcial na sua abordagem.
Efetivamente o País desperdiçou recursos importantes ao ir longe de mais na rede de auto estradas em detrimento dum modelo mais diversificado de acessibilidades incluindo a ferrovia e na construção de alguns dos estádios do Euro 2004.               
A constatação dos erros cometidos deve ser um fator de aprendizagem e não deve conduzir a outros erros por contraposição simples ou azia política. Para que os portugueses tenham mais condições para terem filhos são bem vindos incentivos diretos, mas o essencial é a criação de oportunidades do emprego com segurança e remuneração adequada, condições de acesso a habitação digna em todo o território,reforço das estruturas de apoio pré- escolar e escolar e das oportunidades de qualificação e a garantia de respostas de proximidade em domínios críticos para um crescimento saudável, designadamente em termos da saúde.  
Estas prioridades têm sido assumidas pelo atual governo e têm que ser aprofundadas no próximo ciclo de políticas públicas. As infra estruturas de proximidade fazem parte dum contexto de crescimento e confiança favorável ao aumento sustentado da natalidade. 
Colocar, como fez Cavaco Silva, investimento público e incentivos aos “casais” para terem filhos em contraponto, é um manifesto exagero. O que precisamos é de bom investimento público e privado gerador de confiança, esperança e segurança, para que Portugal continue o seu trajeto quase milenar com nova e forte gente preparada para honrar no futuro as marcas do nosso passado e com condições para se realizar e ser feliz no projeto de vida que escolher.      
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