Alquimias (entre a regra de Ouro e a regra do Pote)

Com o brilhantismo que todos lhe reconhecemos e com a grande erudição e capacidade analítica de que dispõe, Francisco Assis não deixa ninguém indiferente quando discorre semanalmente sobre a política nacional e internacional na sua crónica no Jornal Público.



Num dos últimos textos Assis confrontou a alegada conversão de José Luis Zapatero ao pensamento único e à Europa das equações, com aquilo a que ele chamou o pensamento mágico da Esquerda indignada.



A escrita para ser atractiva tem por vezes que rasar a caricatura. A confrontação que enumerei é uma brilhante caricatura mas não pode ser tomada à letra. O texto na sua globalidade é aliás, em meu entender um ensaio “alquímico” que tem que ser lido nas linhas e nas entrelinhas.



Vejamos em primeiro lugar a aceitação da “regra de ouro” orçamental por Zapatero. Foi uma brilhante jogada de antecipação que permitiu a Espanha escapar à intervenção externa e beneficiar de um PEC (Programa de Estabilidade e Crescimento) tal como Portugal poderia ter beneficiado se não tivesse ocorrido a traição da direita mais atenta à “regra do pote” auxiliada na altura pelas esquerdas de protesto.



Terá depois da sua ação ficado Zapatero convertido à ideia da prioridade dos números em relação à dignidade e à felicidade das pessoas. Se ficou lamento. É mais um que não fará jus no presente ao seu valioso passado.



Em segundo lugar a classificação como pensamento mágico da vontade transformadora de quem acredita que é possível voltar a ter na Europa e em Portugal políticas de crescimento e emprego baseadas no primado das pessoas sobre os cifrões também só pode ser caricatural.



A verdade é que não basta dizer abracadabra ou agitar bandeiras para que as coisas mudem. No entanto sem indignação não é fácil vencer o desânimo e criar no terreno as condições propícias para uma grande derrota nas urnas da coligação que nos vai desfazendo enquanto povo e enquanto País.



Em síntese, ainda há muito espaço por preencher nas respostas políticas na esquerda moderna aos novos desafios do século XXI. Mais uma razão para não amainar na obra. Podemos e devemos fazer a história acontecer de outra forma.











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