Personagens




 

Um dos meus maiores prazeres de férias é a leitura. Leitura diversificada, incluindo alguns livros “obrigatórios” que foram ficando em atraso pelos afazeres correntes e também os títulos da moda que dão gozo especial por estarem a ser lidos ao mesmo tempo por tanta gente que se tornam objeto de animados e improváveis debates próprios da estação.

 

As narrativas históricas, sobre a forma de biografias, reconstituições ou mesmo romances com inspiração em factos ou lendas, são um dos refúgios em que melhor me sinto. Gosto de imaginar os cenários e sobretudo de “sentir” as personagens, a sua densidade, maturidade e evolução. Afinal, a própria vida, individual ou coletiva, é a construção mais ou menos consciente de personagens e do seu contexto.

 

Ao longo dos anos tenho verificado que têm mudado os ângulos de análise histórica que mais valorizo. É normal que tendo já passado folgadamente o meio século de existência me comece a interessar particularmente pela forma como as personagens evoluem no tempo e a estabelecer ligações entre a forma como se afirmam e a forma como amadurecem ou apodrecem enquanto cumprem o ciclo da vida.

 

Espero obviamente aprender a compreender melhor o mundo e a tirar algum benefício para aprender a lidar melhor com o meu próprio percurso (ainda me custa escrever envelhecimento … mas é disso que se trata, inexoravelmente). 

 

Não tenho nenhuma pretensão científica no que escrevo nesta crónica. Apenas partilho o que sinto no que vivo vivendo e no que vivo lendo. Os corajosos e ousados na juventude envelhecem melhor. Os acomodados tendem a enquistar-se à medida que o tempo flui. As exceções só ajudam a confirmar esta regra empírica.

 

Olhem para os designados “senadores” nas várias áreas de conhecimento e ação. São normalmente gente que fez acontecer, que correu riscos, que foi chamada a escolhas difíceis em nome de princípios e valores e que com o tempo e a sabedoria se foram tornando espíritos cada vez mais abertos, tolerantes, capazes de escutar e de aceitar com bonomia novas ideias, novos pontos de vista e novos protagonistas.

 

 Comparem os “senadores” com os “tiranetes”. Estes foram quase sempre fiéis ao soprar do vento, submissos aos poderosos, calculistas nas escolhas, até conseguirem uma posição que lhes deu o estatuto de poderosos e puderam aceder à sua vez de secar tudo e todos que não se submeteram à sua fome de vassalagem.

 

Este ano li (ou pareceu-me que li) mais narrativas em que esta dicotomia entre os senadores e os tiranetes era evidente. A história guarda registo de personagens dos dois tipos. É quase sempre uma síntese das relações de poder, e nas relações de poder não há quotas preferenciais para os justos.

 

Contudo os “senadores” deixaram marcas para além da história. Criaram escola, inspiraram, transformaram e sobreviveram na vontade de fazer de quem os seguiu e segue geração após geração.

 

 Os tiranetes também sobreviveram. São como estátuas. Lembram-nos que na vida nada está conquistado. É preciso lutar por um mundo melhor todos os dias.

 

 

  
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