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O circo italiano (Sobre os impasses políticos)

O Circo Italiano

Em missão no Panamá, no quadro da Assembleia Parlamentar União Europeia – América Latina (Eurolat) tive a oportunidade de falar com muitos colegas parlamentares europeus sobre os impasses políticos que estão a tolher cada vez mais Países da União Europeia (UE).

A participação conjunta em missões oficiais faz com que se estabeleça entre os vários deputados relações de amizade e cumplicidade que quebram a rigidez das barreiras partidárias e dos alinhamentos tradicionais. A angústia sobre como reagir aos impasses democráticos na UE é transversal a quase todas as forças políticas. Existe uma consciência clara de que algumas propostas políticas desesperadas podem ajudar a conquistar votos no curto prazo, mas são pontes para a frustração e o impasse quase imediatos.

O circo político italiano é um caso paradigmático. A frente de direita apostou forte na conquista do eleitorado descontente do norte industrializado de Itália e propôs uma taxa liberatória de 11 % para os lucros empresariais. Conquistou uma votação muito significativa naquela região. Em contraponto o “5 estrelas, consciente da pobreza crescente e do desemprego forte que assola o sul de Itália propôs um rendimento básico para todos os italianos sem rendimentos considerados mínimos para uma vida digna. Conquistou no sul de Itália uma larga maioria.        

Independentemente do mérito intrínseco destas duas propostas, a verdade é que elas foram sufragadas democraticamente mas são incompatíveis, porque uma significa uma significativa redução da receita fiscal e outra um aumento significativo da despesa. O impasse político, neste caso entre o “5 estrelas e a frente de direita, é antes mais um impasse de compromissos. Quem assume que mentiu ao seu eleitorado? Que custos isso terá para a já debilitada democracia italiana? Não é por acaso que tendo sido a frente de direita e o 5 estrelas os partidos mais votados em Itália, todos os olhares para encontrar uma saída se virem agora para o Partido Democrático, que por ter sido poder nos últimos anos foi o único que saiu das eleições derrotado, mas com as mãos limpas de promessas irrealizáveis.        

Falei franca e animadamente com colegas italianos de todas estas forças sobre o “impasse” que todos reconhecem. Também o impasse catalão e os periclitantes acordos noutros países foram motivo de análise. A conclusão que tirei é que o exercício da política na União Europeia (UE) precisa mais do que nunca de um teste de verdade.

Os políticos e as forças políticas têm que falar verdade aos eleitores. Expor as dificuldades e demonstrar a viabilidade das soluções. Continuar a insistir num registo da política como espetáculo de magia circense, prometendo o impossível e não fazendo escolhasmatará, mais cedo do que imaginamos, a democracia na Europa e no mundo.
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