Tudo Trocado




Ou é da minha vista ou está tudo trocado na ação do governo na defesa dos interesses de Portugal e dos portugueses.



Quando deveria ter mobilizado os melhores de entre nós e o seu conhecimento para aumentar o poder negocial perante o Fundo Monetário Internacional FMI) e a Troika, o governo encomendou aos técnicos desse fundo um plano, que se fosse aplicado, esmagaria o que resta da dimensão social e do potencial económico do nosso País.



A qualidade das receitas do FMI para solucionar crises económicas e financeiras está por demonstrar. Nas últimas décadas o caso de sucesso mais reconhecido (e talvez o único incontroverso) ocorreu no Chile no contexto duma feroz ditadura.



Em democracia as receitas do FMI têm-se revelado exercícios com pouca ou nenhuma aderência à realidade concreta dos Países em que as pretendem aplicar. São estudos feitos com base em modelos em que as pessoas são variáveis e não o objectivo último das políticas económicas e sociais.



Mas independentemente da qualidade do consultor, o fato do Governo encomendar externamente o seu programa de ação é a mais forte confissão de impreparação para governar.



Seria como se um empresário em dificuldades pedisse ao Banco que o financia um plano de recuperação económica da sua empresa. Obviamente que a primeira coisa que o banco acautelaria seria o pagamento dos capitais emprestados e dos juros associados.



Seria aliás uma ação legítima. Se crítica houvesse a fazer neste processo, não seria para o banco que acautelou os seus interesses, mas para a inabilidade do empresário em acautelar os seus e daqueles que com ele construíram o projeto.



A agravar tudo isto, é cada vez mais claro que nem a encomenda é firme e delimitada. Cada Ministro sua sentença. Percebe-se que foi Passos Coelho que elaborou o caderno de encargos do Estudo mas que ele não é partilhado por grande parte dos Ministros. Assim (e há males que vêm por bem) dificilmente o relatório terá hipóteses de ser aplicado. É o Relatório FMI/Coelho. Não é assumido como um relatório nem do governo português, quanto mais dos portugueses.



Mas dito isto, permitam-me caros leitores partilhar uma última perplexidade. Não deveria este estudo antes de ser divulgado por um comentador, ter sido objecto duma discussão no Conselho de Ministros? Ainda funcionam as reuniões semanais do Conselho de Ministros em Portugal? Se funciona e um relatório com esta importância não é lá discutido, o que é que lá se discute? A transposição de directivas europeias? O enxoval do novo bebé de Assunção Cristas? A má época do Sporting? Está tudo trocado.

























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