Consensos 20/30

A forma como o anterior Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, usou e abusou do apelo aos consensos, para no último momento os transformar numa tentativa, nunca consentida, de cedência do PS aos cantos de sereia da austeridade, fez com que a palavra e o conceito tenham ficado marcados muito negativamente na política e na sociedade portuguesa.
Hoje, falar de consenso não é popular, porque o dissenso nas políticas e nas práticas posto em prática pelo governo do PS, com o apoio parlamentar do BE e do PCP têm trazido benefícios concretos ao dia a dia na vida da maioria dos portugueses.
Consciente desta realidade, abordo nesta crónica a questão da necessidade de consensos alargados na sociedade portuguesa, não nos territórios de natural diferenciação, mas nos territórios estruturais e não ideológicos em que também se têm que construir os alicerces do nosso futuro coletivo.
Não é possível nem desejável estabelecer consensos entre quem quer competir com baixos salários e quem aposta na subida da economia portuguesa na cadeia de valor. Nem entre quem acha que a emigração é o destino natural dos nossos jovens com talento e quem ambiciona fixar e atrair talento para o nosso País. Menos ainda, entre quem tem uma visão subalterna do papel de Portugal no mundo e quem sente o orgulho de pertencer a uma nação de inovadores e descobridores.
Mas há espaços de consenso que têm que ser explorados. Como referiu recentemente António Costa, foi a divisão política que nos fez perder a oportunidade de construir em devido tempo um Aeroporto estruturante do nosso posicionamento central nas rotas aéreas de passageiros e adiar uma solução inevitável de ligação ferroviária de qualidade entre Portugal e Espanha para pessoas e mercadorias. 
Os temas das infraestruturas, da organização do território, da adaptação da economia aos novos desafios da revolução digital ou do sistema de formação e qualificação, são exemplos de espaços onde um grande consenso nacional pode e deve ser tentado, deixando à conjuntura natural do combate político, a definição das prioridades operacionais.       
Estamos a chegar ao fim de mais um ciclo de programação de investimentos estruturais e um novo se abrirá em breve, tendo por horizonte o final da década vindoura. As linhas gerais do novo ciclo de programação foram definidas e partilhadas de uma forma alargada.
Evitemos que, como aconteceu no passado, as próximas etapas sejam de afunilamento e de pequenas guerrilhas, porque a batalha do desenvolvimento sustentado só poderá ser ganha com a cooperação entre todos. Com convergência nos objetivos e debate político sério sobre amelhor forma de os atingir.  

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