Visto de Casa (07/05)

Um destes dias um amigo contou-me que tinha aproveitado o facto de estar atrabalhar a partir de casa para procurar na rede e adquirir uma nova campainha inteligente e com camara, para a entrada da sua residência. Como tem jeito para a pequena engenharia, montou-a ele mesmo O processo de encomenda foi feito a uma empresa chinesa com um preço, disse-me ele que percebe do mercado, muito competitivo. Nada de extraordinário, nem de surpreendente até aqui.

Mais surpreso e preocupado fiquei quando ele me contou que entre as múltiplas funcionalidades da nova camara, além de permitir visualizar quem bate à porta, é também disponibilizar ao anfitrião dados pessoais disponíveis sobre quem o visitae ainda fornecer a sua temperatura no momento.

Quando o meu amigo me descreveu esta habilidade tecnológica informei-o desde logo, meio a sério, meio a brincar, que nunca mais o visitaria em sua casa mesmo quando as circunstâncias o vierem a permitir. O assunto é muito sério.  

Já era assim, mas agora tenderá a ser cada vez mais. Não visitamos só amigos e nem todos os amigos terão a simpatia de nos comunicar os dispositivos que têm instalados e de os desligar para nós. se assim for a nossa vontade expressa. Além de partilharmos informações com amigos ou desconhecidos, nada nos garante que algumas dessas informações não sejam gravadas e até capturadas por bases de dados externas, mesmo sem o conhecimento do dono do equipamento. Não tenho espírito conspirativo, mas todo o cuidado é pouco. 

Num patamar bem diferente, todo o cuidado será pouco também no processo deuso das tecnologias para ajudarem a delimitar o contágio do vírus. Já aqui refleti sobre as aplicações absolutamente intrusivas utilizadas na China, na India e em muitos outros países, em que o indivíduo é cada vez mais a informação pública que tem e acede do seu telemóvel, mais do que ele e sua vontade. Felizmente essas soluções massificadas não são compatíveis com os valores de proteção daprivacidade europeus, mesmo em situações excecionais. O tema vai estar em cima da mesa e um justo equilíbrio terá que ser encontrado.     

Tenho ouvido com atenção a opinião dos virologistas e dos infeciologistas, e todos consideram que num cenário em que teremos que conviver com o vírus ainda por um tempo incerto, as aplicações de controlo serão um auxiliar fundamental para uma resposta bem-sucedida. 

Várias soluções tecnológicas estão a ser testadas. A geolocalização é a mais óbvia, mas o contacto de proximidade, usando o “Bluetooth” dos telemóveis, pode permitir mais facilmente destruir automaticamente todas as conexões irrelevantes e tratar de forma protegida as que são importantes para os alertas e o controlo da contaminação.

Pela nossa saúde, temos que ter confiança nas autoridades. Pela nossa privacidade e liberdade temos que ter muito cuidado com tudo o resto. Até amanhã, com muita saúde para todos. 

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