O Sossego dos Vulcões

A boa política é a garantia do sossego dos vulcões. Eu sei que não há política pública capaz de travar as forças da natureza (embora algumas ajudem a não as provocar como as políticas de ordenamento ou de combate ás alterações climáticas) mas a verdade é que a erupção do impronunciável vulcão islandês (Eyjafjalla) é apenas uma metáfora da globalização em que vivemos.

Foi a má política regulatória que incendiou o vulcão do colapso dos mercados financeiros. É a titubeante política de concertação e solidariedade económica e financeira da UE que espalha a lava da crise helénica para todo o espaço da União Económica Monetária. É a débil política de cooperação e desenvolvimento harmonioso que inflama os focos de contestação e de terrorismo por todo o globo.

Vivemos um tempo em que muito se fala de deficits comerciais ou das contas públicas, mas em que o maior deficit é um deficit de política, de novas ideias e de novas soluções, de novos valores e de novas abordagens.

A insustentável fragilidade da política neste arranque do século XXI não aconteceu por acaso. Ela resulta dum processo laborioso de enfraquecimento levado a cabo pelos interesses económicos dominantes, abrindo campo para a sua imposição sem alternativa através da disseminação do designado pensamento único e do seu quadro ideológico neoliberal.

Começa a ser agora cada vez mais evidente que esta estratégia subavaliou alguns dos seus impactos e cometeu alguns trágicos erros de análise. No quadro global em que vivemos os fenómenos multiplicam a sua propagação e muitas vezes fazem ricochete ou geram efeitos “boomerang”.

Quando isso acontece, e está acontecer cada vez mais, as coisas complicam-se porque só a boa política sossega os vulcões e o mundo está carente de ideias fortes, narrativas consistentes e modelos mobilizadores de transformação social.

Todos os tempos são tempos certos para o regresso da política, mas no tempo que passa esse regresso é mais necessário que nunca. Só a política com valores e em rede podem evitar violentas erupções dos vulcões económicos e sociais, que a terapia financeira, nominal e cega que se está a aplicar à crise sob um manto de enormes assimetrias sociais, não tardarão em despertar.

O sossego dos vulcões é o bom senso dos homens, a sua capacidade de imaginar soluções e de se mobilizar para o progresso das sociedades. A alternativa à lucidez corajosa da politica dos valores é o nevoeiro do salve-se quem puder, do desespero e do desencanto. Os vulcões não têm a culpa de lhe alimentarem a fornalha. A grande diferença é que no actual patamar de globalização muitos dos fogueiros se salpicarão na lava. Talvez assim aprendam alguma coisa.
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