Ebulição

A nova liderança do PSD iniciou o seu mandato de forma auspiciosa, com sentido de Estado e evidenciando um discernimento claro entre as linhas de fractura e alternativa que caracterizam o combate político democrático e as zonas de convergência exigidas pelo interesse nacional.

Essa atitude deu rapidamente frutos nos estudos de opinião e o PSD passou para a frente nas sondagens. Não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão e deve reconhecer-se que o novo PSD conseguiu com mérito evidente causar essa boa impressão positiva com reflexo nas escolhas e nas simpatias imediatas do eleitorado.

Deu-se então um brutal e inesperado fenómeno de ebulição interna. A tentação do poder insuflada pelas boas projecções, inundou o Partido como um tsunami de volúpia, lançou a confusão nas hostes, provocou múltiplas falsas partidas e fez reverter de tal forma a situação política que hoje são de novo o PS e o seu governo os referenciais de estabilidade para enfrentar a crise.

Nesta fervura destemperada o PSD perdeu mesmo a marca do arranque e do sentido de Estado nele revelado. Hoje a percepção da maioria dos portugueses com que falo (não obviamente dos militantes do PSD, mas das pessoas sem filiação cujas escolhas variáveis decidem as eleições) é que o PSD é um Partido que não concorda com a justa causa como condição para o despedimento mas apenas tem uma vaga ideia alternativa sobre o tema, tal como tem ideias vagas sobre como garantir alguma segurança no acesso à saúde depois de destruir o Sistema Nacional de Saúde e de garantir o acesso de todos à educação depois de fazer implodir a Escola Pública.

Não é fácil definir a fronteira entre ebulição e coragem política quando uma liderança opta por colocar em debate na sociedade portuguesa temas tão cruciais como as relações laborais, o modelo de acesso à saúde e o modelo de democratização do ensino. O que me faz considerar que neste caso houve mais ebulição do que coragem é a ausência de contornos claros nas propostas de mudança.

As coisas tal como se apresentam aos nossos olhos, dão toda a ideia de não terem sido maturadas, pensadas nem reflectidas. Ora se é verdade que não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão numa liderança, o mesmo se aplica às ideias e às propostas políticas.

Chegamos pois a um novo e determinante ano político com o maior Partido da oposição credibilizado por uma boa atitude de convergência na aprovação do Pacto de Estabilidade e Crescimento e ao mesmo tempo amarrado a três linhas de pensamento atabalhoadamente alinhavadas e lançadas para o centro do debate político.

Com estes dados, os estudos de opinião vão fazer baixar a fervura e a ebulição. Veremos depois o que fica quando a água baixar. O comportamento do PSD no debate do Orçamento Geral do Estado para 2011 será um sinal inequívoco de qual impressão é para valer. Se a impressão de responsabilidade do arranque ou se a impressão de desnorte dos passos que se seguiram. As oportunidades não são eternas.
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