Ébola




 

O Rio Ébola é um rio que se espraia pelo norte do Congo e é afluente do grande rio africano com o mesmo nome. Para não associar o nome da localidade em que ocorreu o surto de 1976 ao vírus mortífero que então foi pela primeira vez identificado, os investigadores chamaram Ébola, um rio próximo, a um vírus cujas características de propagação e taxa de mortalidade associada estão a aterrorizar o mundo.

 

Desde 1976, ano em que primeira vez foi identificado o vírus Ébola, ocorreram muitos surtos da doença, uns mapeados pelas organizações mundiais de saúde e outros eventualmente não. Só desde 1994 foram identificados oito surtos no Gabão. No Congo e no Uganda. Embora muito mortíferos, os surtos foram sempre confinados. O maior número de vítimas identificado aconteceu no surto de 1995 no Congo (então ainda Zaire) em que morreram 256 pessoas.

 

O surto atual que tem focos ativos na Libéria, na Serra Leoa e na Guiné-Conacry e já se disseminou para outros países da região e para outros continentes ainda que através de casos pontuais, já terá morto mais pessoas que todos os anteriores juntos.

 

 O que mudou para que isto tenha acontecido? Não quero neste texto fazer qualquer considerando técnico. Nada me qualifica para opinar sobre epidemiologia. A minha perspetiva é um misto de análise social e politica.

 

A expansão global do vírus com um impacto enorme na saúde mas também na economia, resulta do desenvolvimento de dois fenómenos que em conjunto são explosivos. A globalização, que gerou um brutal aumento da mobilidade e ao mesmo tempo um significativo aumento da desigualdade.

 

No passado, as bolsas de pobreza extrema existentes nalgumas zonas do globo estavam muitas vezes longe do coração, longe da vista e longe de poderem perturbar os grandes territórios desenvolvidos.

 

 Sempre com o apoio inigualável de missões e gente boa que se dedicou a apoiar os que menos têm, esses focos de pobreza onde se desenvolviam novas doenças, quando ficavam a uns milhares de quilómetros das luzes da ribalta, nem eram suficientemente próximos para causar medo nem atrativos para serem vistos como oportunidade de negócio.

 

Só assim se explica que desde 1976 até hoje nenhum laboratório tenha apostado em desenvolver um retroviral eficaz contra o Ébola. A taxa de mortalidade no recente surto (epidemia – pandemia?) não é muito diferente à que ocorreu em 1976.

 

Chegámos a 2014. O Rio Ébola continua a abraçar-se diariamente ao grande Congo enquanto os que sucumbem ao vírus nem um abraço podem receber no leito da morte. A natureza relembra a toda a hora à humanidade as suas limitações e passa-lhe sem dó o preço da sua arrogância.

 

Mais mortos ou menos mortos, também o Ébola será vencido. Mas aprenderemos alguma coisa? O modelo social baseado na desigualdade, no consumismo e no lucro a qualquer preço se não for travado a tempo levará a que toda a humanidade se contamine pelo vírus pior de todos. O vírus da falta de sentido e da falta de sentimentos.        

 

 

 
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