Tramagal

A vila ribatejana do Tramagal está desde há muito tempo associada à metalurgia pesada e em particular à produção e montagem de veículos pesados de transporte.

Os mais novos não se recordam, mas todos os que serviram ou acompanharam o exército português até aos anos 80 do século passado têm certamente na memória as “Berliet Tramagal”, viaturas pesadas de transporte que eram um portento de força e uma dor de cabeça de condução, com as suas 12 mudanças invertidas, exigindo um cuidadoso jogo de embraiagem (duplas) para entrarem.

Na minha memória perduram ainda também as botas de borracha e tecido usadas pelo exército e adoradas pelos jovens do meu tempo, que lhe chamavam carinhosamente “Berliet Tramagal” em homenagem à sua resistência e aspecto imponente.

A tradição do Tramagal como centro de produção de camiões, camionetas e outros veículos manteve-se ao longo das décadas. Recentemente a Mitsubishi Fuso Trucks controlada pelo maior produtor mundial de Camiões (Daimler Trucks) passou a produzir aí o seu modelo Canter, exportado para mais de 30 Países e com um volume de produção anual de quase 200 milhões de Euros.

A aposta no Tramagal como centro de produção de camiões tem vindo a ser reforçada (embora no cerne da crise se tenha verificado uma ligeira redução do esforço produtivo face à quebra de encomendas). No dia 13 de Maio, um comunicado da empresa anunciou a decisão de encerrar duas unidades produtivas na Ásia e reforçar a linha de produção do Tramagal, naquilo que constitui uma grande notícia pelo seu valor directo e pelo significado indirecto da decisão.

Trago esta notícia para esta crónica pelas recordações que me desperta, pelo interesse do facto relatado mas sobretudo para sublinhar como os critérios editoriais dos nossos “media” mais significativos, em particular as televisões, tendem a dar uma visão distorcida da realidade, seguindo o princípio de que o povo gosta mais de ver desgraças do que receber boas novas.

A notícia que antes relatei surgiu em pequenas notas nas páginas de economia dos principais jornais publicados em 14 de Maio e não me apercebi que tivesse tido destaque em nenhuma televisão. O que teria sucedido se os factos fossem ao contrário, ou seja, se a Daimler Trucks tivesse transferido a sua produção do Tramagal para as suas fábricas na Ásia? Algum telejornal teria aberto com outra notícia que não essa? Haveria imagens com muitas lágrimas, desespero e comentadores encartados afirmando o colapso da indústria Automóvel em Portugal. No entanto, como as boas notícias não dão essa agitação, esta boa notícia foi quase ignorada.

Portugal vive tempos difíceis tal como acontece com todo o mundo, fazendo com que as más notícias económicas surjam com grande regularidade e tenham grande visibilidade. Não é salutar que as más notícias sejam ignoradas ou dadas de forma mitigada. O que seria espectável era um tratamento equilibrado entre o que corre mal e o que corre bem.

O exemplo da fábrica da Daimler Trucks no Tramagal é bem uma caricatura que demonstra que não é assim. A imprensa ressalta muito mais as más notícias do que as boas agravando ainda mais o clima económico pouco favorável em que vamos vivendo. É um exercício de liberdade. Bom seria que fosse também um exercício de equidade.
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