Desigualdades e Migrações



 

Quando pensamos num modelo de sociedade próximo do ideal de humanidade e dignidade, ocorrem-nos sempre os exemplos, que as estatísticas confirmam, dos Países Escandinavos, moldados por fortes sociais-democracias, com modelos bem-sucedidos de desenvolvimento sustentável.

 

A vida profissional e política já me tinha proporcionado várias vezes estar na Dinamarca e na Finlândia. Tive recentemente a oportunidade de completar o "puzzle", visitando a Noruega e a Suécia.

 

Os países escandinavos continuam a ser um exemplo único de igualdade de acesso às oportunidades, organização, tolerância e não corrupção. A sua tolerância tornou-os destino apetecido para muitos deserdados da globalização que ali procuram refúgio e oportunidades. Este movimento está a mudar a paisagem política e social desses Países de referência.

 

Hoje, as sociedades nórdicas estão profundamente divididas em relação à forma como devem receber e incluir os milhares de migrantes vindos de Países pobres que a elas afluem. Tornaram-se em consequência sociedades menos consensuais e mais crispadas. A extrema-direita xenófoba ganhou peso político e os sociais-democratas deixaram de ser os líderes das coligações de governo, embora na generalidade ainda as integrem.

 

Nas cidades, que visitei pude sentir crescentes sinais de exclusão. Ruas e bairros étnicos, pedintes e sem tecto nas esquinas, sinais de profunda desigualdade, não entre os nativos, mas entre os que chegando, vivem nas margens da sociedade.

 

A desigualdade e a pobreza são uma doença social que a globalização se encarrega de disseminar. A tolerância e a inclusão são a resposta necessária a esse fenómeno, mas se não combatermos as desigualdades na origem, dificilmente as conseguiremos combater com sucesso nas sociedades de acolhimento.

 

Vista da Escandinávia esta questão ainda é mais premente. Se estas sociedades não conseguirem ser inclusivas nenhuma outra conseguirá. O risco é que deixando de ser inclusivas para quem chega, deixem também de o ser para todos os outros.

 

O alerta é claro. Temos que combater as desigualdades como um desafio global. Atacar os movimentos obscurantistas e ajudar a reconstruir as instituições nos Estados falhados.

 

Fazer das migrações não um acto de desespero, mas um processo de mútua vontade. Não é um desafio fácil, mas é para já o maior desafio social que o mundo enfrenta.

 

 

 
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