A Itália, a democracia e o palhaço

Nas recentes eleições italianas mais de 30% dos eleitores em geral e de 40% dos jovens votaram no Movimento 5 Estrelas, uma força que nasceu com o perfil de uma plataforma de protesto, tendo como rosto o palhaço Beppe Grilo e como suporte uma plataforma informática de troca de informação, recolha de contributos e designação de candidaturas. Esse movimento, que se institucionalizou sem deixar de ser um partido de protesto e estruturalmente populista, agora sob a liderança de Luigi di Maio, foi a força mais votada nas eleições.

O maior erro que as famílias políticas tradicionais podem cometer é menosprezar ou minimizar aquilo que aconteceu em Itália. Se os eleitores e em particular os eleitores jovens protestam é preciso tentar compreender as razões do seu protesto e formular com pedagogia política e sensibilidade comunicacional, propostas viáveis que respondam a esses protestos.

É verdade que os populistas se limitam muitas vezes a dar voz e amplificar os protestos sem apresentarem nem terem solução para eles. Isso deve ser denunciado, mas as forças que se lhes opõem não podem limitar-se a isso e a  fazerem-se de surdas  perante os protestos. Têm que saber ouviravaliar e criar plataformas fáceis, para que quem quer protestar o possa fazer e seja convidado a colaborar no desenho se alternativasviáveis.

Se é verdade que amplificar protestos sem ter soluções é uma forma oportunista de fazer política, não é menos verdade que tentar convencer os eleitores que se tem respostas, sem que eles se sintam ouvidos e integrados no desenho das soluções anunciadas também não é um caminho credível, sobretudo depois de tantas promessas terem sido incumpridas nas últimas décadas. A vitória do movimento do “palhaço” em Itália foi apenas a consequência mais impressiva deste paradoxo.

É fundamental que as famílias políticas tradicionais europeias aprendam com o que está a acontecer. Não se vencem os movimentos populistas dizendo mal deles ou condenando os seus métodos (desde que transparentes e democráticos). Vencem-se, sendo melhores que eles na governação em concreto e na disponibilização de novos modelos de participação em particular. Vencem-se dando voz a quem está aberto a transformar o protesto em ação construtiva. Vencem-se fazendo política com valores e elevação. Vencem-se adequando as práticas à nova realidade tecnológica que muda o perfil funcional das nossas sociedades, os seus modelos de comunicação e de participação e os processos de escolha política.

Vencem-se sem palhaçadas mas com muita criatividade e abertura de espírito. A pretensa superioridade moral das práticas de antanho não nos conduzirá a amanhãs melhores. E sem essa inspiração, cada vez menos gente votará em quem propõe o passado para responder ao futuro.  
Comentários
Ver artigos anteriores...