Crónica de uma morte (mal) anunciada

Foram muitas as crónicas de autoria diversa que nos últimos anos anunciaram a morte da esquerda progressista na União Europeia (UE). Felizmente foi um anúncio prematuro e exagerado. Nas recentes eleições para o Parlamento Europeu, o grupo dos Socialistas e Democratas (S&D) em que se integra o Partido Socialista Português consolidou-se como a segunda força na UE. Mais do que essa consolidação, com resultados bem melhores que os ditados pelos augúriosverificam-se sinais de renascimento em países nevrálgicos que sustentam a esperança num novo ciclo político forte para a esquerda progressista europeia. 

A confirmação da aposta da maioria dos eleitores ibéricos nos Partidos Socialistas de ambos os países, conseguida após experiências governativas corajosas e inovadoras, foi um sinal profundo e altamente significativo. No outro extremo geográfico, na Escandinávia, os trêspaíses que integram a UE (Suécia, Finlândia e Dinamarca) têm ou preparam-se para ter a curto prazo governos liderados pela social democracia nórdica, grande inspiradora da esquerda progressista de todo o mundo.
É curiosa e motivadora esta retoma política que cavalga em simultâneo pelo sul e pelo norte eque embora ainda não tenha tocado alguns dos maiores países da UE (em França e na Alemanha, por exemplo, foi através da votação pró-europeia verde e não da votação nos partidos socialistas tradicionais que renasceu a esperança) já permitiu alguns resultadospositivos e surpreendentes, como a vitória da esquerda nas europeias na Holanda e o ressurgimento do Partido Democrático em Itáliaassumindo-se como a grande oposição ao governo populista e de extrema-direita comandado pela Liga Norte.

grupo S&D obteve nas eleições europeias de 2014 cerca de 190 mandatos. Muitos prognosticaram que cairia em 2019 para menos de metade. Não caiu. Elegeu mais de 150representantes, entre os quais 9 portugueses. A morte anunciada não se consumou. Aressurreição, contudo, ainda não é certa, e exige trabalho, compromisso e qualidade política.

Os resultados obtidos criaram uma nova responsabilidade à esquerda progressista europeia na resposta aos anseios e necessidades das pessoas. A agenda portuguesa de combate às alterações climáticas, recuperação demográfica equilibrada territorialmente, transição digital justa e redução das desigualdades, como motores de crescimento e emprego, pode ser uma boa inspiração para que a morte anunciada nunca seja consumada, a bem da pluralidade e da democracia na UE.
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