Altruístas ou Perdulários?



 

Escrevo esta crónica em Bruxelas num dia de Outono seco, solarengo e luminoso. As notícias que me chegam de Portugal são que o vento e a chuva têm sido a marca dos últimos dias. A isto, de forma simplista, chama-se alteração climática e o principal suspeito de as provocar é o aquecimento global.

 

Muitos contestam esta ideia do aquecimento global alegando que no nosso País tivemos um dos verões mais frios de sempre. Acontece que o aquecimento é um indicador médio e o que se está a verificar é o aumento dos diferenciais que depois geram fenómenos extremos, catástrofes naturais, destruição da costa e outros malefícios conhecidos.     

 

Estando prevista a apresentação pela Comissão Europeia do novo pacote Energia/Clima 2030 para o início de Outubro, preparando a posição europeia para as conferências internacionais que se vão seguir (Peru este ano e Paris no próximo ano) o tema tem sido central nas discussões e nos debates que têm decorrido no Parlamento Europeu, sobretudo nas comissões em que tenho assento e que cobrem os temas da industria, da investigação, da energia e do ambiente entre outros.

 

A Comissão europeia prevê ganhos de 40% na eficiência energética e na redução de emissões de gases poluentes e um aumento até 27% da percentagem de energias renováveis no pacote energético da União e de cada Estado Membro em particular.  Muitos acham estes objectivos pouco ambiciosos e outros consideram-nos escandalosamente exagerados.

 

Eu acredito que estes objectivos não só combatem as alterações climáticas como podem ajudar a relançar a economia e a tornar o ambiente mais saudável para todos nós. Considero baixa a meta das Energias Renováveis (Portugal por exemplo já está hoje acima dessa meta) e razoável a meta da Eficiência, que poderá dar um forte impulso à inovação limpa e á competitividade da indústria europeia, além de criar novos mercados no contexto da recuperação urbana e do tecido económico.   

 

A questão das emissões fia mais fino. Aqui as abordagens radicalizam-se. Devemos ser altruístas e dar o exemplo independentemente do que as outras potências económicas fizerem ou pelo contrário, como o impacto das emissões não é localizada, devemos evitar ser perdulários e tomar decisões unilaterais que penalizam no imediato as nossas empresas?

 

Na China inauguram-se centrais a carvão a um ritmo mais que mensal. Só as emissões de uma central deitam por terra todas as poupanças que Portugal pode fazer num ano cumprindo as metas europeias.

 

Neste domínio é preciso criar uma consciência e uma acção global. Sozinho não há quem consiga resolver nada. Hoje faz sol em Bruxelas e chove em Portugal. Um dia poderemos ter seca nos prados da Holanda e inundações no sequeiro alentejano. Mas a sustentabilidade da vida como a desejamos, já a teremos destruído entretanto.

 
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