Encruzilhadas

Tenho a feliz oportunidade de escrever estas palavras num quarto de hotel em Praga de cuja ampla janela posso avistar a conhecida e bela ponte Carlos construída ao longo de cinco séculos e pejada de símbolos da história dos tempos que viu passar, ou que por ela passaram, e também um edifício onde uma enorme tarja anuncia estar instalado o Museu Kafka.

Faço-o numa pequena pausa da visita oficial do Presidente Português à República Checa. Visita que tive oportunidade de acompanhar como um dos representantes do Governo, e onde para além da componente política, foi desenvolvida uma forte acção de diplomacia económica.Uma visita onde tem sido notório que as semelhanças entre os dois países não resultam apenas da similitude de dimensão territorial, população ou peso económico, nem mesmo da partilha recente da pertença comum à União Europeia, mas vai bastante para além disso.

Sem nenhuma base que não a intuição empírica sou levado a acreditar que um papel mais ou menos relevante tem nesta constatação o facto dos portugueses e dos checos, com maior ou com menos grau, serem povos que viveram ciclos históricos muito diferenciados, alternando grandeza e humilhação. De alguma forma estes povos que passaram pela história aos solavancos (e nela continuam com forte presença e com o orgulho dos sobreviventes), tendem a tornar-se por vezes prisioneiros dessa mesma história, quer da boa quer da menos boa.

Tornam-se em consequência disso povos mais bipolares emocionalmente e ao mesmo tempo mais desconfiados, o que não é grande notícia num tempo em que a confiança é um factor determinante para o sucesso na economia global.

Não sei se estou certo na minha análise ou se ela é demasiado influenciada pelo quadro extraordinário que avisto da minha janela, mas estou em crer que estes Países de média dimensão, com forte densidade identitária e amarrados para o bem e para o mal à textura da sua história deveriam criar uma plataforma comum para em conjunto travarem a disputa económica e social que está a ocorrer no novo quadro da globalização, reforçando a confiança pelas relações mútuas e saindo do labirinto pela complementaridade e pela afirmação agregada do seu potencial.

Falei disto com abertura com alguns responsáveis checos e vi o entusiasmo que esta ideia duma abordagem multilateral complementar lhes era simpática e ajudava a quebrar uma certa desconfiança latente em relação à União Europeia e a tudo o que dela provêm.

Vivemos um tempo de encruzilhadas. Sair delas exige ousadia e inspiração. Soluções inovadoras e disruptivas. Debate franco e aberto. É com este espírito que partilho convosco esta intuição de cair de noite, posta em texto tendo por fundo um quadro impressivo da beleza e da complexidade do mundo em que nascemos, com a missão extraordinária de desenhar e concretizar coreografias de vida sustentável e feliz.

PS: Escrevo esta nota final em Estrasburgo no curso do regresso a Portugal por estrada. Num repente o mundo entrou numa encruzilhada Kafkiana na mobilidade global provocada pelas cinzas lançadas pela terra islandesa. Vivemos tempos de transição em que tudo tem que ser repensado e reformulado. Precisamos de tecnologias e valores de nova geração para sair das encruzilhadas com rumo certo.
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