Vírus (Por uma governação mundial)

O surgimento na China, na cidade de Wuham, de uma nova estirpe de vírus da gripe altamente contagioso, designado por coronavírus, gerando uma epidemia e um risco de pandemia à escala global, acionou um sistema de resposta que espero seja capaz de mitigar os danos, mas que veio provar mais uma vez que no mundo em que vivemos, com circulação cada vez maior de pessoas, bens, serviços, informações e conhecimento, se multiplicam os fenómenos que podem ser mitigados mas não  contidos por fronteiras, legislações, ações ou determinações locais.

Não arrisco neste texto em fazer qualquer previsão sobre a profundidade que atingirá este fenómeno que a Organização Mundial de Saúde declarou como emergência global de saúde. Qualquer número que coloque neste texto estará desatualizado no momento seguinte. Todos os dias sobem os casos na China, são mais os países em que existem casos declarados e em consequência também as pessoas que perdem a vida devido à contaminação, embora neste fator concreto o novo vírus pareça ser menos letal, embora mais contagioso, do que alguns que o antecederam.

A propagação do vírus, pelo seu impacto potencial e global, despoletou uma resposta planetária, aparentemente rápida embora feita aos solavancos e resultante da soma de ações dispersas. As organizações internacionais, a comunidade científica, os laboratórios e as redes de saúde estão a cooperar ativamente para encontrar uma resposta rápida à crise antes que ela ganhe uma dimensão que ultrapasse as linhas de possível controlo.

Neste como noutros domínios, como as “infeções” cibernéticas, as notícias falsas, os esquemas de branqueamento de capitais, os gangs criminosos no tráfico de seres humanos, drogas e outros produtos e serviços ilícitos, o poder de resposta de um Estado, mesmo de um país muito poderoso como é a China, é claramente impotente para travar a globalização dos fenómenos. 

A humanidade precisa de ter a lucidez de definir planos preventivos e de resposta integrada aos fenómenos globais. A ideia de uma “governação mundial” estruturada a partir da Organização das Nações Unidas (ONU) para lidar com fenómenos que transcendem os países e os continentes parece cada vez mais utópica, com o enfraquecimento da ONU e do seu financiamento, mas faz também cada vez mais sentido, ainda que obviamente adotando uma forma moderna e desconcentrada de implementação.

É legítimo esperar que os vírus de tantas e variadas estirpes, possam tornar “viral a ideia de que, enquanto humanidade, temos que nos unir para sobreviver.


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