A Janela Italiana


 

 

No corrente semestre a União Europeia é presidida pela Itália. Depois do Tratado de Lisboa e da criação nele feita do cargo de Presidente do Conselho Europeu, o papel das Presidências perdeu relevo e visibilidade. No entanto, continuam a ser as equipas do País da Presidência a gerirem e a dinamizarem os principais dossiers sectoriais, em articulação com o Parlamento e com a Comissão Europeia.

 

O programa da Presidência Italiana é inovador e ambicioso. Com o impulso desse programa e com a pressão e a consciência do risco político do empobrecimento e da insignificância que ele acarreta, bem notória na gestão do conflito com a Rússia, uma nova linguagem tem tomado conta dos debates europeus.

 

Economia circular, mercado interno da energia com aposta nas energias renováveis, nas interligações e na diversificação de fontes, agenda digital como base duma reindustrialização inteligente e limpa, parcerias estratégicas para afirmação do potencial tecnológico europeu e ambição de liderança em áreas críticas como as redes de informação, o mar ou a biotecnologia, entraram com força e convicção no debate quotidiano do Parlamento Europeu.

 

Uma entrada que não se fez pela porta da tecnocracia, mas pela porta da nova política. Esta nova linguagem liga-se a novos objectivos de crescimento e emprego, de redistribuição de riqueza e diminuição de desigualdades, de combate à pobreza e de imigração apoiada e integrada no modelo económico e social.

 

A reacção a esta lufada de ar fresco não é consensual. Os mais conservadores e os "ganhadores" do contexto de crise esfregam as mãos a pensar que já só faltam 3 meses para o Natal e para que esta janela se feche.

 

Em contrapartida os países "perdedores" da crise das políticas de empobrecimento têm a obrigação de aproveitar ao máximo a janela italiana, a que se seguirão duas Janelas menos viradas a Sul e com menos peso político como é o caso das Presidências da Letónia e do Luxemburgo.

 

E o Governo Português? Se já fez alguma coisa para aproveitar esta janela de oportunidade não se deu por nada.

 

A mensagem mais forte que entendeu enviar, foi propor para a Comissão Europeia um homem que é um dos principais rostos da austeridade e da Tróica. Um homem do tufão financeiro que pôs em causa uma parcela significativa do projecto europeu.

 

Esperemos que a brisa mediterrânica que sopra de Itália não permita ao nosso Governo, filho dilecto da Tróica, continuar incólume a acarinhar os mercados e a seviciar as pessoas.

 
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