Nem tudo o que parece é (a propósito dos actos simbólicos da nova governação)

É normal que o inicio de um ciclo governativo seja marcado por actos simbólicos que posicionam a governação, traçam-lhe um estilo, entretêm a comunicação e dão a ideia de acção enquanto ainda apenas existe trabalho de organização.

No entanto os actos simbólicos nem sempre são o que parecem e até esses (ou sobretudo esses) merecem ser analisados com detalhe para se compreenderem as linhas fortes do que nos espera e para evitar que tentem fazer de nós mais desatentos do que somos.

Não podendo analisar nesta crónica todos os actos simbólicos já anunciados pelo novo governo vou-me centrar em dois. A Candidatura (falhada) de um independente à Presidência da Assembleia da República e a viagem do Primeiro-ministro ao Concelho Europeu na classe económica de um voo comercial da TAP.

Comecemos por Nobre. O PSD insistiu no acto simbólico de candidatar um independente ao segundo mais importante cargo da Nação. Acontece que Fernando Nobre pode ser independente mas mostrou uma enorme dependência na forma como pôs condições para ser Deputado, maltratou a instituição que se propunha liderar e tentou forçar uma “nomeação” política sem raiz no respeito pela vontade livre dos deputados. Na sequência da dupla derrota de Fernando Nobre, o PSD viu-se forçado a propor uma militante, mas uma militante de espírito independente, com largo currículo político e cívico e reconhecida entre os seus pares. Foi eleita facilmente na primeira votação. A Assembleia da República não escolheu um independente formal, mas preferiu uma independente de espírito. Foi um acto simbólico com uma resposta simbólica. Nem tudo o que parece é.

Vejamos agora a viagem a Bruxelas. Está já esclarecido que os governantes de há muito não pagam bilhete quando viajam na TAP. Trocar um bilhete em executiva por um bilhete em económica terá permitido em abstracto à transportadora vender um bilhete mais caro. Mas percebe-se o acto simbólico. A questão não é a sua validade mas as suas consequências. A escolha simbólica teve uma racionalidade política sustentável para além da dimensão comunicacional?

Imaginemos que em vez de viajar em voo comercial o Primeiro-ministro tinha feito como é prática normal em todos os Países e tinha viajado com a sua comitiva num dos Falcon da força aérea. Sairia mais caro? Claro que sim, mesmo sabendo que os pilotos e os aviões têm que fazer uma quilometragem mínima mensal por razões operacionais e que a fazem com ou sem requisições do governo.

Mas a economia de tempo com o uso do Falcon talvez tivesse permitido que os parceiros sociais e os partidos tivessem sido ouvidos antes da cimeira pelo PM (prática habitual) e não apenas pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros como simbolicamente aconteceu. E talvez também tivesse permitido uma mais rápida formação da equipa de Secretários de Estado, questão determinante e chave na estrutura de todos os governos e em particular num governo reduzido como este (num acto simbólico que analisaremos em crónica futura).

Num Primeiro-ministro tempo é dinheiro, nem que seja tempo para reflectir, descansar e ponderar, e por isso neste caso da viagem em carreira comercial dum PM sob pressão a um Conselho Europeu tem muito que se lhe diga. É que nem tudo o que parece é.
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