Vida Corrida

Recentemente, após ter colocado nas redes sociais um texto sobre os trabalhos que desenvolvi em Africa para procurar contribuir para que as parcerias internacionais sejam amigas da paz, do desenvolvimento sustentável e duma visão humanista para o futuro do mundo, uma amiga de juventude que a seu tempo teve grande influência no meu gosto pela política ativa e pelo meu compromisso com o PS, fez um comentário que mexeu comigo.

Escreveu ela, e cito apenas excertos, “compreendo ou tento compreender o teu otimismo … se não o tivesses não exercerias as funções que exerces (…) mas eu não estou nada otimista. A geopolítica é só para alguns. Nós, como todos os iguais a mim, devíamos ser o centro, o foco da ação e da decisão, mas nesses corredores, nessas salas, não existimos. Somos apenas estatísticas (…). Tive esperança, muita esperança, num mundo bom para os meus filhos. Mas a minha geração falhou, e tudo o que lhes deixo é desesperança.  Mas deixo-lhe um conselho (…) que não se calem”.    

Que grande texto, ainda melhor se o espaço permitisse citá-lo na integra, e que grande questão colocou a minha amiga. O mundo de hoje é como um lago. Sobrevivem os peixes grandes e os pequenos que se escondem nas rochas. Há cada vez menos espaço para os peixes médios a não ser em ecossistemas fechados e protegidos. 

Eu, a minha amiga e tantos outros amigos que me enchem a memória, somos a geração do 25 de Abril.  Acreditámos que íamos melhorar o mundo com as nossas mãos, mas a realidade foi mais rápida que nós e escorregou-nos.

O mundo, em média, melhorou e a síntese entre a esperança e a desesperança é antes de mais um combate pessoal e emocional, mas sentimos que não fomos tanto como sonhámos ser, protagonistas centrais dessa mudança. As comunidades foram evoluindo e os fenómenos foram acontecendo apesar de nós, ou pelo menos, duma forma em que a consciência do nosso contributo se foi tornando cada vez mais difuso.

Amiga, é bom o conselho que deixas aos teus filhos e que é válido para todas as gerações. Que não se calem e sobretudo que não desistam de participar e exigir, seja nos patamares da geopolítica ou nas redes da sua escola, do seu bairro, da sua rua ou da sua empresa. Quem define o a nossa centralidade somos nós. Esperar que outros o façam é meio caminho andado para a deceção e para a desistência. O sistema adora os que desistem. Consomem e não chateiam.  

Comentários
Ver artigos anteriores...