Remodelar

Num momento em que o verbo remodelar tem vindo a ser conjugado com várias declinações e tendo passado tempo suficiente para que a história não pareça uma coscuvilhice, gostaria de partilhar nesta crónica um interessante diálogo que mantive com o treinador do “meu” SCP na sexta-feira anterior ao ainda bem vivo volte face de Alvalade, aquando do jogo dos leões com o Vitória de Guimarães.

Paulo Sérgio que tinha acabado de ser galardoado com o prémio “Mais Desporto” pela revista Mais Alentejo, estava a aproveitar a frescura dos ares de Tróia quando o meu coração de adepto não resistiu a interpelá-lo sobre as razões porque tinha remodelado uma equipa que vinha de três vitórias consecutivas, provocando uma derrota chocha na liga Europa contra um adversário belga que quinze dias antes tinha sido goleado em Lisboa.

A resposta dele não foi surpreendente. Disse - me que era preciso rodar todo o plantel e sobretudo salvaguardar a disponibilidade física da equipa para o jogo de campeonato que se seguiria.

Não tenho dotes de adivinhação e neste caso bem gostaria de também não o ter tido, mas a verdade é que manifestei a minha discordância dizendo-lhe que mais vale uma equipa cansada mas motivada e confiante do que uma equipa fresca mas sem o grau de confiança psicológica que permite afrontar as dificuldades inesperadas que um jogo de futebol pode colocar.

Para além de usar outros argumentos como a imagem internacional do clube e do futebol português e a mobilização dos adeptos, disse-lhe ainda que esperava que tudo corresse bem com o Guimarães, mas que temia o pior se a equipa fosse posta à prova, não fisicamente mas psicologicamente.

Paulo Sérgio é um cavalheiro. Ouviu-me atentamente, respeitou a minha opinião e manteve a sua. Não sei se no momento do descalabro que se seguiu à expulsão de “Maniche” lhe terá vindo à ideia a nossa conversa daquele dia. Eu obviamente pensei muito nela. Tanto que me apeteceu contá-la aqui e extrair dela algumas lições!

O ideal no futebol como em tudo na vida é a aliança entre a convicção, a confiança e a disponibilidade para a acção. Mais vale uma equipa descansada mas psicologicamente frágil ou uma equipa cansada mas forte, confiante e coesa? Quando tudo corre com normalidade os folgados levam a melhor. Quando surgem obstáculos são os convictos que triunfam.

Ao treinador cabe escolher os melhores para cada desafio, fazendo as necessárias remodelações tácticas e estratégicas sem nunca dar a ideia, como Paulo Sérgio deu no jogo da Liga Europa, que não se jogam em cada momento os melhores trunfos disponíveis para vencer, mobilizar os adeptos e galvanizar a equipa.

A verdade é que quando uma equipa se habitua a perder a feijões, não consolida a robustez mental necessária para quando se empina o caminho, vencer jogos que valem pontos e glórias, levando a alegria a milhões de adeptos que são a sua razão de ser e a base da sua existência.
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