Melancolia (Coisas do Alentejo)

Realizou-se dia 20 de Novembro no Convento do Espinheiro a já tradicional Gala Anual da Revista Mais Alentejo. António Sancho e a sua equipa têm vindo a conseguir fazer da Gala um grande momento de demonstração da pujança do Alentejo, da diversidade dos seus valores, da força dos seus protagonistas e da excelência das suas ofertas.

Este ano, a qualidade da Gala não fugiu à regra e de novo se reuniu na iniciativa uma riquíssima selecção regional de artistas, empreendedores, dirigentes, políticos, técnicos e profissionais da comunicação, que mostraram num relance a riqueza duma terra de lonjuras e de distâncias, mas também de fraternidade e de identidade forte.

Muitos foram os premiados e os laureados, em categorias elegíveis e em escolhas editoriais (prémios carreira). Não vou aqui listar os escolhidos nem destacar pessoas, projectos ou empreendimentos. Os editores certamente agradecerão que os curiosos adquiram a próxima revista, onde tudo será certamente exaustivamente reportado. Foco por isso este texto num momento que me marcou particularmente e me convocou a esta reflexão partilhada.

Um dos eleitos, na categoria de música, foi um jovem fadista que não conheço pessoalmente mas que já me impressionou nalgumas oportunidades pela qualidade e a expressividade da sua voz e da sua mensagem musical e poética. O seu nome artístico é Duarte e presenteou os convivas com a interpretação de dois temas, um dos quais muito marcante, versando a melancolia que cruza o carácter alentejano e a nossa forma de estar e de ser.

Ao ouvir e sentir aquele poema cantado sobre a forma de fado, ocorreu-me o profundo contraste entre a força daquele evento e a afirmação do abandono melancólico a que as gentes do Alentejo tanto gostam de se acostar! Pensei na altura nas imagens que Carmen Almeida nos legou no seu impressivo álbum de “Objectos Melancólicos de Évora” (Caleidoscópio 2005) e interroguei-me sobre as faces diversas dessa melancolia, que por um lado nos dá densidade e por outro desliga tantos de nós das forças da mudança e da modernidade que nos convocam para um tempo novo.

A melancolia é parte de nós e da nossa maneira de ser. Faz parte do património psico-sociológico da nossa terra. É uma riqueza única e ao mesmo tempo um travão enorme ao compromisso com a acção, ao impulso para a mudança e à ambição de estar entre os vencedores, que contaminando muitos alentejanos, é no entanto escassa na plenitude da sua sociedade e da sua economia.

A melancolia é um fado! Resta saber se cantá-la enquanto fado é um exorcismo ou um acto de acomodação! Duarte solta a voz com força e ambição. Mas a nossa voz colectiva é também ela forte e ambiciosa? Será capaz de vencer a melancolia sem destruir a força telúrica do carácter?

Esta é uma pergunta retórica. Cada leitor que responda por si na sua atitude quotidiana. O futuro será o fruto dessas respostas. Da minha certamente, mas da sua também. Têm a mesma importância para o fado moenga que junto “cantamos”.

Os alentejanos não cantam sozinhos, nem moengas nem auroras! Cantam juntos a alegria e a melancolia. E vão saindo e vão entrando e vão aonde?
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