O Cisne da Política

O livro “O Cisne Negro” escrito em 2007 por Nassim Taleb (Editado em Portugal pela D.Quixote) foi dos livros cuja leitura mais me marcou nos últimos anos. Nesse livro, que li nas férias de 2008 e sobre o qual me recordo de já ter escrito neste espaço, Taleb discorre meticulosamente sobre o impacto do altamente improvável na gestação das dinâmicas económicas e sociais e demonstra a falência dos modelos tradicionais de predição baseados na racionalidade linear ou na projecção para o futuro de lógicas e experiências passadas.

No momento em que Taleb publicou o seu livro (e mesmo no momento em que eu o li e comentei) a crise económica brutal que assolou o mundo e em particular a Europa era altamente improvável e no entanto sabemos hoje como ela se verificou e nos massacrou e massacra com consequências ainda impossíveis de descortinar.

De facto, se dúvidas existissem quanto à prevalência do disruptivo e do improvável sobre o linear e o provável, os recentes acontecimentos à escala mundial e nacional dissiparam-nas de forma categórica.

A grande lição do livro de Taleb e da sua evidência empírica é que em contextos complexos como aqueles em que hoje vivemos o mais provável raramente acontece.

Mesmo sabendo isso, e mesmo tendo consciência de que o cenário político actual em Portugal era altamente improvável há um ano, há cada mais gente a traçar cenários lineares de probabilidade futura, convergindo em geral na ideia de que este governo não cumprirá a legislatura, se realizarão eleições no início de 2012 e essas eleições darão origem a uma nova maioria. Estas projecções são aliás já pasto fértil de muitas conjecturas, baixar de braços prematuros e arrogâncias matutinas.

Não sei se as conjecturas estão certas ou erradas. De facto segundo a evidência empírica de Taleb ninguém sabe. Os cisnes negros não se anunciam. Aparecem com o estilhaçar do ovo disruptor.

No entanto, sabemos que na perspectiva de Nissam Taleb, validada pelos factos recentes, as conjecturas mais prováveis dificilmente se concretizam! O altamente improvável é muito mais possível de acontecer que o altamente provável, já que este é uma linha de convergência e aquele é uma espiral de possíveis divergências.

Aplicando esta leitura à política nacional, não sendo provável que aconteça o mais provável, todos os outros cenários estão em aberto. Tudo pode acontecer assim ou ao contrário, mais cedo ou mais tarde.

Em boa verdade, os tacticistas que jogam nas conjecturas podem acertar ou falhar, mas só quem for fazendo acontecer com determinação e consistência dará crédito à nobreza da política e conteúdo ao mandato recebido.
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