Chuva



 

Vitor Gaspar disse na assembleia da República que as suas previsões falharam por causa da chuva. Do meu ponto de vista, que sei tanto de meteorologia como Gaspar de economia, foi mais por causa da seca.

 

O clima anda estranho. Ora chove ora faz sol. Ora parece que o Verão assentou arraiais ora regressa a invernia (isso de Primavera e Outono nos dias que correm já são mais figuras de estilo). Mas no reino da governação os desígnios climáticos têm uma mão por detrás do arbusto e não é a do Presidente!

 

Vitor Gaspar secou a economia, tirou-lhe massa monetária, desalavancou à grande e à alemã, esmagou a procura interna, destruiu o tecido criador de riqueza, tornou o terreno dos negócios esquelético e sem consistência e provocou um retrocesso impensável.

 

Hoje Portugal tem os mesmos postos de trabalho que tinha há 18 anos e a cria a mesma riqueza que criava na viragem do milénio.

 

Uma enxurrada de austeridade varreu as nossas especializações a nossa sustentabilidade social e económica e no horizonte nenhum arco-íris nos indica o ponto de viragem.     

 

Gaspar não quer que chova e sobretudo não quer que haja dinheiro disponível nas famílias portuguesas. E porquê? Porque as dinâmicas económicas perturbam os seus modelos financeiros.

Não fora a mania das pessoas de trabalharem, produzirem, consumirem e viverem com um certo sentido de procura da satisfação e Gaspar teria conseguido errar menos as suas tecnicamente impolutas e sofisticadas previsões.

O ideal para quem pensa como ele, seria mesmo uma economia sem pessoas! As máquinas são mais previsíveis, não fazem greves e não vivem acima das suas possibilidades. Já viram algum motor continuar a trabalhar sem combustível? E pessoas a sobreviver sem dinheiro? Percebem agora Gaspar? Eu percebo e por isso lutarei com todas as minhas forças, não contra a pessoa, mas contra a perversidade das suas ideias!

Só essa perversidade justifica aliás que as Finanças retenham o subsídio de férias de grande parte dos funcionários públicos portugueses para lhe ser creditado apenas em Novembro.

Imaginem que não chovia este Verão e as famílias decidiam ir até à praia e aos campos. Que desperdício de recursos! Estradas com trânsito, restaurantes com clientes, hotéis e pensões lotadas, apartamentos alugados, consumos supérfluos de cerveja, gelados, bolas de Berlim e até marisco comercializado e consumidos em tempo de crise! Os artesãos com procura, os profissionais do entretenimento, as lojas de churros e farturas, os bailes e as discotecas, os saraus culturais e as tertúlias em veraneante animação. Luxúrias dos povos do sul que quanto menos dinheiro têm mais tendência manifestam para gastar tudo o que recebem!

Coisas da chuva, sobretudo quando apanha um cidadão desprevenido e lhe encharca a cabeça.

 
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