Visto Casa (15/05)

Valentina não morreu de COVID19. Escrevo e colaboro regularmente em diversos órgãos de comunicação social nacional e regional e por isso fiz deste diário de confinamento um espaço de reflexão focado na forma como sinto o impacto da pandemia na minha vida e na vida daqueles que conheço, visto a partir de casa e dos espaços a que a partir dela vou acedendo.

Evito por isso comentar a atualidade. O novo que é sempre velho. As antecipações, os anúncios, as tensões. Tenho outros espaços para o fazer.

Hoje quebrei a regra ao abrir este texto. Se a pandemia nos convida a focar no seu impacto e na mudança que vai induzir, não nos pode desfocar das outras tragédias do quotidiano. No mundo morrem mais Valentinas por fome, violência ou desamor, do que vítimas do novo vírus. Uma coisa não diminui a importância da outra. Mas não podemos ignorar. Há mais morte para além do COVID.

Num momento em que a União Europeia procura a todo o custo conter as subidas das taxas de juro resultantes das dúvidas expressas pelo Tribunal Constitucional Alemão sobre a compra de dívida pública pelo Banco Central Europeu, Ursula Von der Leyen, a alemã que preside à Comissão Europeia,esteve no Parlamento e brindou o Eurodeputados e os cidadãos europeus com um discurso inspirador. A vida é feita de contrastes.

Antes de olharmos para o discurso da Presidente, vale a pena dar mais um passo explicativo na questão do Tribunal Constitucional Alemão. Não restam dúvidas de que o Tribunal de Justiça Europeu tem supremacia sobre os tribunais constitucionais dos Estados membros em temas do acervo comum. Então porque é que os mercados pressionam as taxas de juro das economias mais expostas?  

Temem que o tribunal alemão consiga manietar oBanco Central Alemão. Isso, a acontecer, abrirá um processo contencioso que a União vencerá, mas reduz a força imediata da resposta. Este é o cenário que os mercados financeiros temem e em que os juízes falcões apostam.  Por isso a bússola das taxas de financiamento das economias mais expostas variou em alta. Marginalmente por enquanto.

E com tudo isto acabei por ficar com pouco espaço para a boa da fita. É quase sempre assim. Ursula Vonder Leyen apelou a uma União Europeia unida na diversidade e na adversidade, capaz de formular uma resposta que reflita os nossos valores comuns, baseada na necessidade, mas desenhada para o futuro, desta maneira reforçando a solidariedade entre países e cidadãos, mas também entre gerações.  

Assinalando que o preço da reconstrução será aumento da dívida, ainda que dívida comum e partilhada, Ursula lembrou com propósito que se vamos criar dívida que os nossos filhos terão que pagar, devemos usar esse dinheiro para investir no futuro deles. E disse muito mais, mas esta pequena síntese, explica porque qualifiquei de inspiradoras as suas palavras.

Até amanhã, com muita inspiração e muita saúde para todos.  
   
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