Desgoverno

Todos sabemos que entre as múltiplas dificuldades que afligem a nossa sociedade neste final de inverno e início de primavera, estão a dupla falta de liquidez. Choveu pouco e as terras estão ressequidas, as culturas em grande risco e os gados a precisar de suplementos onerosos para os agricultores. Ao mesmo tempo o sistema bancário não alimenta a economia com crédito e os sistemas de pagamentos entravam e contaminam empresas e iniciativas rentáveis, criadoras de emprego e decisivas para a sobrevivência da nossa economia.

A seca nos campos e a falta de liquidez nos Bancos deviam ser duas das principais áreas de actuação do Governo. Logo por azar (escolha errada) são áreas que estão atribuídas e essa invenção de Pedro Passos Coelho que são os Super – Ministérios! Tão grandes tão grandes que quando uma noticia entra a porta e chega à secretária do decisor já passou muitas vezes o tempo útil da resposta.

A reacção à seca, depois da profissão de fé de Assunção Cristas e de terem caído algumas gotas até ao momento em que escrevo este texto, deve estar agora entregue a um grupo de trabalho estratégico que permita que as centenas de dependências do Super – Ministério conversem umas com as outras e concluam como se devem organizar para criar um grupo operacional que desenhe uma resposta para a Ministra ponderar antes da decisão do Conselho de Ministros.

Já para os lados da Horta Seca (Ministério da Economia e do Emprego) a estratégia parece ser outra. Enquanto o Ministro não sabe para que lado se voltar, os colegas de governo com mais poder político vão-no aliviando de algumas pastas. Paulo Portas levou a internacionalização, as exportações e as empresas inovadoras. Miguel Relvas avocou o emprego dos jovens e as qualificações, Moedas capturou o planeamento e os objectivos macroeconómicos e Gaspar pôs em sossego junto dele os fundos estruturais.

Toda esta novela é interessante de se contar. Dela resulta, estou certo, uma crónica viva e motivadora. Mas é uma novela triste, porque é uma novela que deixa para os próximos capítulos ainda mais desemprego, recessão e incapacidade de mobilizar os portugueses para um tempo melhor.

Tempos virão em que a democracia permitirá mudar o guião, o guionista, os cenários e os actores principais. Mas por enquanto, é a coligação PSD/CDS a dona do filme. Que se organizem. É o mínimo que em nome pessoal e dos meus leitores de tantos anos lhes posso pedir.
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