Visto de Casa (30/04)

Avançar e recuar não são movimentos bons ou maus por natureza. Dependem das circunstâncias. Se dissermos que Portugal avançou no crescimento e recuou no desemprego como estava a acontecer nos últimos anos, os dois verbos estão de mãos dadas para nos ajudarem a dar boas notícias.

Já se partilharmos a previsão relativamente consensual de que com a pandemia vamos recuar no crescimento e avançar no desemprego, os verbos voltam a amancebar-se para retratar uma triste consequência da propagação viral.

Durante as últimas semanas Portugal conseguiu resultados reconhecidamente positivos no controlo dos impactos sanitários do COVID19, porque enquanto povo soubemos recuar e avançar. Enquanto muitos recuaram para o confinamento, outros avançaram para a linha da frente, prestando os cuidados de saúde, de segurança, de abastecimento e de produção, que só podem ser feitos fora de casa.

Chegou o momento de com grande rigor e seguindo todas as recomendações das autoridades de saúde, muitos dos que recuaram, darem agora um passo em frente, solidário com aqueles para quem esse passo é determinante para a sobrevivência do seu emprego, do seu negócio ou do seu projeto de vida.   Falo com muita gente que hesita. No meu íntimo também baila o dilema. Avançar não é fácil.

Mas de que servirá, com o calendário avalizado pelos especialistas e que hoje o Governo anunciará, ir abrindo serviços, lojas, restaurantes, se depois nósrecuarmos e não formos lá?

Os que não pertencerem a um grupo de risco e tiverem a possibilidade económica de usufruir do que for reabrindo, deverão fazê-lo por si, pela sua saúde física e psicológica, mas também pela saúde da nossa economia e pela resiliência da nossa sociedade.

Estaremos a fazê-lo em respeito pela saúde coletiva? Essa é a grande incerteza, mas sabemos qual é o indicador que move quem nos governa. Tudo será feitopara que o Sistema Nacional de Saúde continue a poder responder a todos os casos agudos. Foi para isso que juntos achatámos acurva dos infetados e dos internados. Se o avanço evidenciar algum risco, teremos que recuar. Os dois verbos que se juntaram a mim neste diário estarão na primeira linha da nossa esperança e do nosso medo ainda por alguns meses.

Depois de tudo passar, os dois verbos continuarão comigo, nem que seja para dizer que o Sporting se quer ganhar tem que avançar em jogo apoiado, porque já não tem um Jardel nem um Bas Dost para resolverem sozinhos na área, e depois tem que recuar sem cometer o erro de ter dois trincos que se atropelam, como tantas vezes aconteceu enquanto esta época durou. Que bom sinal será, poder voltar a falar de bola convosco. Até amanhã, com muita saúde para todos.  
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