Visto de Casa (12/05)

É cedo para cantar vitória, sobretudo quando todos os dias nos bombardeiam com a possibilidade de uma segunda ou mais vagas, mas a retoma progressiva da vida social com distanciamento físico tem vindo a ocorrer sem que, em consequência, os números de infetados tenha disparado. A morbilidade tem vindo a diminuir e o número de recuperados a subir significativamente. Estamos todos de parabéns.

A grande maioria dos portugueses adotou em relação a esta fase do desconfinamento progressivo uma atitude similar à que tinha adotado na do confinamento mais ou menos compulsivo. Cumpriram as regras de forma cordata.

Ir agora um supermercado, a um barbeiro, a uma livraria, não é tão complicado como pode parecer pelas discrições exaustivas dos manuais das autoridades de saúde. Ainda vamos estranhar quando tivermos que tirar a máscara.  

Estes comportamentos demonstram que o nosso povo é profundamente intuitivo. Percebe os sinais. Desconfia das grandes deduções cheias de complexidade e verborreia, mas entende a comunicação simples e prática. Percebeu e agiu em conformidade, ajudando a diminuir o impacto sanitário do vírus e a manter a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde para as situações mais agudas.

Ainda não consegui perceber o grau de mudança de atitude e estado de espírito provocado pelo confinamento nas pessoas com que me vou cruzando à distância. As pessoas parecem naturalmente mais receosas, menos expansivas, mais nervosas e menos simpáticas. Se é apenas à superfície ou se é algo mais fundo não sei. Eu também devo parecer assim, embora não dê jeito andar com um espelho às costas. Já basta a máscara.

Acredito que a grande maioria de nós regressará mais humilde, mais consciente das nossas fragilidades, daquilo que não controlamos, do efémero da vida, do vazio de certas coisas que pareciam dar importância, estatuto, reconhecimento.

Sempre fui humilde e confiante. Humildade não é subserviência. É consciência do que podemos e do que não podemos fazer, de que nada somos sozinhos, que tudo o que conseguimos acontece porque outros se juntam a nós e completam o puzzle que torna viável qualquer ação humana.

Li na imprensa que os carros de luxo foram os únicos que não diminuíram as suas vendas durante os últimos meses. Há sempre quem resista e não compreenda a mudança do mundo que os rodeia, mas acho que os compradores vão ter uma surpresa. As pessoas vão olhar mais para eles e menos para os seus carros. Valerão por si. Até amanhã, com muita saúde para todos.      


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