Modo Propaganda





 

O designado programa de ajustamento, forma eufemística de designar a estratégia concertada e voluntária de empobrecimento da sociedade portuguesa que tem vindo a ser sistematicamente aplicada desde o início de funções do Governo Passos/Portas, cumpriu uma das suas componentes processuais. O Memorando com a Troika foi aplicado, não apenas na já dura versão inicial, mas numa versão ainda mais abrasiva em resultado da escolha ideológica e da vontade política da maioria.

 

O governo adotou a política de contração e corte que estruturava o memorando com a Troika (a que chamou reformas estruturais, embora as reformas necessárias não tenham passado um esboço rascunhado em forma de guião) como o seu modelo para governar e prometeu mesmo ser particularmente ousado e refinado na aplicação dessa políticas. Definiu o empobrecimento como sua prioridade e cumpriu na execução. Os resultados estão á vista.  

 

Enquanto esta maioria for governo, não obstante o fim deste ciclo processual do programa de ajustamento, as políticas de austeridade que o inspiraram continuarão em vigor e em aprofundamento permanente. A única coisa que mudará (já mudou aliás) será o discurso. Depois mudarão as políticas, mas apenas se esta maioria for amplamente derrotada nas urnas como merece.

 

É sobre o novo discurso da maioria que vos quero falar um pouco mais neste texto. A mudança do discurso tem tido duas componentes particularmente relevantes. A primeira é a antecipação de resultados da aplicação do próximo ciclo de fundos estruturais. O governo em fez de falar do Estado atual do País, descreve o “leite e mel” que correrá daqui a uns anos. Este “golpe de mágica” discursiva visa fazer com que as pessoas não pensem nas dificuldades que estão a viver e se projetem numa imaginária retoma, associando a retoma a este governo. Ora este governo e retoma são realidades incompatíveis. Só por encantamento se podem ligar.  

 

O segundo “golpe de mágica” baseia-se na ideia de que os portugueses fizeram grandes sacrifícios mas agora que o mau tempo passou e está tudo bem. Infelizmente não é assim. Mesmo que fosse essa a vontade do Governo a destruição do tecido económico e social foi tão profundo que só uma terapia longa e assertiva o pode fazer recuperar. É não é certamente quem fez a ferida que a poderá sarar.

 

O governo entrou em modo propaganda. Em democracia isso é mais ou menos inevitável. Mas o que vai decidir as eleições será a forma como os portugueses se sentirem e a confiança que tiverem nas propostas de alternativa. A propaganda já teve dias melhores no terreno das escolhas políticas.

 

  
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