Pela Hora da Morte


É conhecida a expressão popular que se usa quando os preços estão elevados em relação aos rendimentos. Diz-se nestes casos que a vida está “pela hora da morte”! Neste texto quero falar deste tema de forma menos metafórica.
Os indicadores disponíveis mostram que este ano o número de óbitos no primeiro trimestre subiu significativamente. O que terá acontecido? Um vírus gripal particularmente forte? O impacto dum inverno seco e favorável ao contágio? Pior qualidade das respostas e maior dificuldade de acesso aos cuidados de saúde?
Não tenho dados para arriscar uma resposta científica. Empiricamente acredito que terá ocorrido uma conjugação de todos os fenómenos antes enunciados. O acesso aos cuidados de saúde, está mais difícil e mais caro. Mais difícil porque encolheu a rede e reduziram-se as possibilidades de uso de transportes de doentes. Mais caro porque subiram significativamente as taxas moderadoras.
Imagine-se um idoso que ao fim da tarde numa aldeia da nossa região se sente fortemente engripado. Não tem acesso a uma resposta local de saúde. Não tem transporte gratuito. Se for à urgência mais próxima tem como certa uma taxa moderadora elevada além dos preços dos medicamentos (uma percentagem está isenta das taxas moderadoras).

Neste quadro muitos dos doentes usarão as velhas mezinhas. Chá, mel, um analgésico e fé que o quente da cama afugente o vírus! Muitas vezes isso acontecerá, mas se não acontecer no dia seguinte o doente debilitado terá mesmo que se por a caminho do hospital mais próximo e uma vez lá chegado corre sérios riscos da sua situação recomendar o internamento.
Uma vez internado terá dos melhores cuidados possíveis, que se há coisa de que Portugal ainda se pode orgulhar é do seu Sistema Nacional de Saúde, mas ninguém lhe retira o risco dos contágios em ambiente hospitalar.
Se tudo correr bem, alguns dias depois voltará a casa, são e salvo. O Estado que poupara umas dezenas de euros na primeira tarde, acabará por gastar alguns milhares para remediar. Mas se remediar, tudo acaba bem!
A verdade é que este ano menos casos foram remediados com sucesso. Morreu mais gente. Terá sido apenas o acaso e as variações epidemiológicas? Quero acreditar que sim, mas as coisas estão difíceis. É preciso um cuidado especial. O custe o que custar na saúde está na fronteira entre a vida e a morte.













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