Acordo Desafinado (O maestro falhou)

Nos momentos de crise profunda, as respostas possíveis são sempre respostas políticas. Portugal precisa mais do que nunca de boas respostas políticas. De boas respostas políticas dos Partidos do Governo e dos Partidos de poder actualmente na oposição.

Já aqui escrevi várias vezes que a governação não tem estado à altura do desafio. A dicotomia entre a má governação e a avidez pela ocupação do Estado é evidente e explosiva. Sublinho por contraponto a forma como o PS tem feito oposição usando uma regra de ouro – não propor nem aprovar nada que não pudesse concretizar se fosse governo.

A credibilidade política, sem demagogia e com elevada proximidade é uma resposta à altura dos desafios dos nossos tempos. Pode não exaltar as multidões ou saciar os estados de alma, mas consolida as opções para a construção duma alternativa responsável para Portugal.
Foi essa atitude que mais uma vez prevaleceu na apreciação do Acordo de Concertação Social. O acordo era importante e ajuda Portugal no plano externo, mas está longe de ser um bom acordo.

Quando uma orquestra desafina a culpa pode ser da qualidade dos músicos, mas normalmente a maior responsabilidade é do Maestro. O acordo de concertação social assinado na passada semana é um acordo necessário mas desafinado. Uma desafinação que resulta do enviesamento do maestro e da sua falta de ambição.

O Governo nunca deu mostras de saber o que queria deste acordo de concertação. Coerente só mesmo a partitura em que ignorou o crescimento, o emprego e a qualificação da economia.

Tivemos eventuais reduções de taxas sociais únicas, bancos de horas em vários formatos, aumento de horário de trabalho, modelização de férias e feriados. Tudo foi atirado para o caldeirão sem nexo nem coerência estratégica. O cozinhado final só por milagre podia ser bom.

Finalmente temos um acordo. Um mau acordo. Um acordo que garante um empobrecimento consentido do País mas um acordo necessário. Viva portanto o acordo. Mas vamos ter que ser capazes de, como sociedade e como País, ir muito para além deste acordo na agenda para o crescimento, a qualificação e o emprego, se quisermos estar à altura dos desafios que enfrentamos.
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