Porque arde Portugal ?


 

Entre 2000 e 2002 tive a honra de servir como Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Administração Interna (SEAMAI) tendo a tutela delegada do Serviço Nacional de Bombeiros (SNB) e do Serviço Nacional de Protecção Civil (SNPC), uma área que durante a minha passagem pela SEAMAI evoluiu para um Sistema Nacional de Protecção e Socorro (SNPS), embrião da actual Autoridade Nacional.

 

Quem é “bombeiro” por um dia jamais o deixa de ser. Sigo com interesse, admiração e comoção o trabalho árduo que ano após anos os soldados da paz vão desenvolvendo na defesa da nossa floresta. Festejo com eles cada vitória e choro cada fracasso. Indigno-me em particular com a perda de vidas e com a destruição do património natural.

 

Mas a pergunta impõe-se. Porque arde Portugal? Porque é que em condições de contexto similares há anos mais trágicos que outros?

 

Saúdo todos os Bombeiros de Portugal e em particular as corporações e as famílias que a tragédia deste ano trespassou de dor. Portugal arde por razões estruturais que ainda não conseguimos ultrapassar, como os povoamentos inadequados ao clima, a falta de limpeza das matas e a incúria ou paranóia de alguns cidadãos. Mas arde também, e não pretendo lançar nenhum libelo político, mais ou menos conforme o dispositivo de combate é proactivo ou reactivo.

 

De tempos a tempos há governos (acredito que sempre com a oposição dos responsáveis políticos e operacionais do sector) que decidem poupar no desenho do dispositivo de primeira resposta aos fogos. Arriscam no casino da natureza, mas sempre que isso tem acontecido têm perdido com consequências brutais para as famílias e para o nosso património florestal.

 

Conhecemos os fatores de risco. A cobertura florestal errática, a falta de limpeza, as temperaturas altas e os ventos imprevisíveis. É para esse cenário, em tudo pode “correr mal” ao mesmo tempo, que precisamos de ter um mecanismo de resposta imediata que nunca permita que se perca o controlo da situação, que as ignições sem resposta rápida se multipliquem, que as mulheres e homens que combatem os fogos se extenuem, que se passe ao momento em que todos dão o melhor (e até a vida) mas ninguém controla a solução.

 

Quando a máquina não é preparada em antecipação, depois em desespero gasta-se muito mais, perde-se muito mais património e entra-se num clima de salve-se quem puder. Os piores anos de área ardida em Portugal foram aqueles em que à partida mais se “poupou” na montagem do dispositivo de combate aos fogos florestais. Foram também os anos em que no final, feitas as contas, mais se gastou e mais se perdeu.

 

Gosto demasiado dos Bombeiros e respeito demasiado o seu esforço para fazer política com o seu desespero. Peço apenas a quem de direito que reflicta nesta ideia simples. Também na preparação dum dispositivo de combate aos fogos florestais “o barato sai caro”. A realidade não engana. Tem sido sempre assim desde que acompanho este sector.

 

 

 

 

 

     

 
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