Na Despedida de Juncker

No dia 22 de outubro, na sessão plenária do Parlamento Europeu em Estrasburgo, o presidente cessante da Comissão Europeia (CE) Jean Claude Juncker proferiu aquele que nos termos da normalidade institucional, terá sido o seu último discurso naquela câmara.   Está agendada agora para 1 de dezembro a posse da nova Comissão Europeia, mas há ainda um caminho denso e não isento de riscos a percorrer até que Ursula vonder Leyen possa assumir funções plenas. O certo é que Juncker se despediu e é por essacircunstância que lhe dedico este texto.

Jean Claude Juncker é uma personalidade controversa, devido a alguns comportamentos pessoais, a algumas escolhas em termos de equipas de trabalho e pelasua responsabilidade política em práticas financeiras pouco recomendáveis no Luxemburgo, quando foi seu chefe de governo. É também um convicto europeísta, um homem imbuído dos valores humanistas do projeto europeu e um aliado dos países da coesão nos processos de tomada de decisão mais difíceis e designadamente na gestão da crise financeira que esmagou a União Europeia a partir do final da primeira década do século.

Embora membro do PPE (Partido Popular Europeu), grupo politico em que se acoitam o PSD e o CDS/PP, Juncker nunca escondeu a sua pouca simpatia pelas políticas de austeridade impostas a Portugal e a outros países com problemas de financiamento das contas públicas e esteve sempre do lado da solução quando Portugal passou a ter um governo que em vez de querer ir além da Troika, como fez o governo Passos/Portas, apostou na reposição dos rendimentos e da confiança como motores de recuperação. No caso da crise das contas públicas em Portugal, o governo do PS, a geringonça que o viabilizou e Jean Claude Juncker estiverem sempre alinhados e do lado certo da história. 

Podemos olhar para o mandato de Juncker e da sua Comissão e ver o copo meio vazio ou meio cheio. Sem querer fazer humor com a imagem, considero que a ideia do copo meio vazio se aplica bem à sua equipa, condicionada e muito por um Conselho com pouca ambição e um Parlamento maioritariamente conservador, mas o desempenho de Juncker merece uma avaliação globalmente positiva.

Com o seu empenho reconhecido, a União Europeia fez caminho na transição energética, na transição digital, no reforço dos recursos próprios, no embrião de um fundo de estabilização e de apoio às reformas estruturais, na modernização dos acordos comerciais e na cooperação ativa contra as ameaças à segurança. Muito ficou por fazer, mas neste momento de despedida, prefiro salientar as boas sementes deixadas. Das outras tratará, espero, quem depois dele virá liderar a Comissão Europeia.

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