Deixemos o Monfurado em Paz

A Serra do Monfurado que se espraia pelos Concelhos de Évora e Montemor-o-Novo, rodeada de vales esplendorosos, é um dos mais ricos patrimónios naturais do Alentejo.Para mim, que tenho lá fortes raízes, esse território é dos mais belos que conheço no muito mundo que já pude percorrer.

Segundo alguns registos históricos, a Serra deve o seu nome ao facto de no passado os romanos nela terem explorado ferro, prata e ouro, furando o monte, cujas feridas expostas, contudo, já o tempo se encarregou de curar. Também explorações realizadas no final do século XIX e início do século XX deixaram algumas marcas já diluídas na lindíssima paisagem da Serra que separa as bacias hidrográficas do Tejo e do Sado

Nos primórdios desta década uma empresa norte-americana (Colt Ressources) obteve uma licença para prospeção condicionada de ouro na zona do Monfurado. O projeto de exploração que dai decorreu era leonino, anunciando graves danos na paisagem, riscos de detritos ambientais, criação de muito pouco emprego qualificado e produção de escassa riqueza para o País e para a Região. Na altura, há pouco mais de 4 anos, um forte clamor regional contra o investimento e fortes exigências de mitigação e explicitação técnica por parte das autoridades, levaram a empresa a desistir do projeto.

Foi um clamor similar aquele que se levantou agora, quando se tornou pública a intenção de uma empresa dos Emiratos Árabes Unidos de fazer novas prospeções num território que grava em si mesmo profundos traços dos períodos pré-históricos, está coberto de história e se inclui na rede Natura 2000.

Nas últimas semanas e a propósito de uma tomada de posição clara do PS Évora contra a possibilidade de novas prospeções, recebi partilhas de informações técnicascom avaliações diversas sobre o custo benefício da exploração mineira na região. O que partilho nesta crónica não é resultado de um estudo técnico sobre o tema. Não tenho formação especializada na área. Baseio-me apenas naquilo a que poderei chamar uma avaliação empírica e fundada no bom senso

Sou por princípio favorável a que os países e os territórios conheçam os recursos que têm, não significando isso necessariamente que os explorem. Uma sólida análise custo / benefício tem que proceder sempre qualquer intervenção que possa colocar em causa a sustentabilidade e alterar os ecossistemas básicos. 

Acontece que no caso do Monfurado uma prospeção foi feita recentemente e que uma análise custo / benefício não mostrou ser convincente, quer na avaliação técnica quer na apreciação cidadã, plasmada na opinião pública, nas tomadas de posição espontâneas e nos pareceres das autarquias envolvidas. Nada me leva a querer que haja vantagens em repetir o processo. Deixemos o Monfurado em paz. 






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