Regresso a Casa ( O fim do ciclo eleitoral)

Realizaram-se ontem as eleições autárquicas culminando um longo ciclo de legitimação política iniciado na Primavera com as eleições europeias e culminado no Outono com as eleições legislativas e as eleições locais. Foram duas Estações e quase um semestre de intenso debate político e de intensa celebração da democracia, aqueles que acabamos de viver.

Na próxima crónica escreverei aqui sobre as eleições autárquicas. Este texto é escrito ainda antes da sua realização e nele quero sobretudo analisar as dinâmicas eleitorais das legislativas no País, na região e no Distrito.

O PS ganhou com clareza as Eleições Legislativas no País, na Região e no Distrito. No entanto, para além da objectividade crua dos números verificou-se em meu entender uma interessante mudança da base sociológica do voto no Partido vencedor. Uma mudança pontual e que pode abrir excelentes perspectivas políticas para o futuro deste Partido se houver o engenho e a arte de fazer os seus votos naturais regressarem a casa, sem que os agora captados se percam. Os resultados no Alentejo e no Sul ajudam-nos a perceber o que sucedeu e a antecipar o que pode suceder no futuro.

Ao contrário do que vinha sendo habitual em eleições anteriores o PS teve agora no Alentejo e no Sul em Geral uma votação ligeiramente inferior à média nacional. Isso resulta do Partido ter perdido pontualmente para o PP, PSD, BE e abstenção votos de pequenos agricultores e de funcionários públicos insatisfeitos com políticas específicas de reforma implementadas e com alguns erros de forma nessa implementação. Ora estas faixas sociológicas têm mais peso na base eleitoral do Alentejo e do Sul do que na base eleitoral das outras regiões do País.

Em contrapartida o PS ganhou porque captou o voto dos pequenos empresários, dos profissionais liberais e dos quadros mais qualificados que normalmente lhe escapavam maioritariamente. Ora no Alentejo estes segmentos têm menos peso que noutras regiões e daí o resultado obtido, cerca de 1 a 2 pontos abaixo do resultado nacional.

Todos os partidos têm um núcleo duro eleitoral de pessoas que votam nele quer faça chuva ou faça sol. Estimo que no PS esse núcleo duro varie entre os 20 e os 25%. A dimensão das vitórias e das derrotas consolida-se com a capacidade de juntar a esse núcleo duro um ou mais eleitorados específicos. Do meu ponto de vista o PS conseguiu nas eleições de 27 de Setembro votos de quem nunca tinha conseguido e de sectores em que nunca tinha entrado. Perdeu também votos de professores, enfermeiros e outros funcionários públicos descontentes com as necessárias reformas funcionais e / ou da idade de aposentação e de outros eleitores que sempre tinham votado PS e que têm uma relação afectiva com o partido, interrompida agora por uma discordância pontual e específica.

O grande desafio que se coloca ao PS agora é governar com serenidade, convicção e em aliança com a sociedade portuguesa. Se assim o fizer, como estou certo que o fará, muitos votos naturais que perdeu “regressarão a casa” e a base sociológica para a modernização e a transformação do País será bem maior do que a maioria expressa nas urnas e reflectida no Parlamento.
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