Um ano depois (Gratidão)


 

 

Faz hoje um ano que se realizaram as eleições para o atual Parlamento Europeu.  Dessas eleições ficou para a história uma vitória clara do PS sobre a direita coligada, suplantando os pauzinhos que muitos quiseram e conseguiram colocar na engrenagem da campanha. Uma vitória histórica que acredito será repetida já este Outono, para bem de Portugal e dos portugueses.

Um ano depois quero partilhar convosco um pequeno balanço pessoal. Sempre tive um critério na minha vida. Fazer escolhas profissionais em que posso fazer acontecer e ser feliz. A minha experiência do Parlamento Europeu tem cumprido plenamente esse duplo critério.



Num Parlamento com 751 representantes de 28 países, a cadeia de decisão é muito complexa. Em vários processos fui dando o meu contributo. Através da comunicação social, das redes sociais,  da "newsletter" ZNews e das peregrinações pelo mundo, pela Europa e pela nossa terra, tenho prestado contas da minha atividade. Um número significativo de decisões favoráveis a Portugal e à visão de Europa que represento tiveram a minha participação. Em que percentagem ou com que importância para o desfecho final? É impossível definir com exatidão face à complexidade do processo institucional de decisão.

Embora de forma lenta, o contexto europeu tem vindo a melhorar. Conhecendo melhor as suas insuficiências, tenho ao mesmo tempo mais confiança na perspetiva reformista que poderá recolocar a União Europeia na linha humanista que presidiu à sua criação. Também para esse impulso reformista é determinante a derrota em Portugal da coligação que sob protetorado, nos gere em nome de interesses alheios.

Ser Deputado Europeu implica experiência. O que eu sou hoje como político e como homem, devo a muita gente. Gente que me ensinou e ensina. Gente que trabalhou comigo e trabalha.  Gente que me apoiou e que me contrariou numa dialética fecunda. Gente que acreditou e acredita em mim. Todas e todos são razão do que eu sou hoje. Um Homem feliz no que faz, realizado e preparado para fazer sempre mais e melhor.

Um ano depois a minha palavra e o meu sentimento de síntese só pode ser um. Estou grato. Grato à vida. Grato à minha Família. Grato aos meus camaradas e aos meus adversários. Grato aos meus amigos e aos meus inimigos. Grato às portuguesas e aos portugueses. Obrigado



 
Comentários

A vitória do Medo (A direita não dá abébias)




 

O Partido Conservador venceu com maioria absoluta as eleições no Reino Unido. Foi uma vitória democrática, conseguida num sistema eleitoral discutível mas democrático e que lhe atribui em plenitude um mandato democrático de governação. 

 

Acredito que os meus leitores estranhem que num só parágrafo tenha sublinhado três vezes o caracter democrático da vitória dos conservadores. Faço-o para poder seguidamente utilizar, ao reconhecer sem reservas a democracia da escolha, o meu direito democrático de qualificar e analisar os resultados. A vitória dos conservadores no Reino Unido fintou as previsões e as sondagens e atingiu a dimensão que atingiu, porque o medo de mudar venceu o desejo de mudança.

 

Na campanha eleitoral assistimos a uma pressão brutal da imprensa e das forças da direita neoliberal jogando todos os trunfos – o trunfo da secessão, o trunfo da instabilidade, o trunfo da soberania e até o trunfo da autonomia no controlo das fronteiras.

 

 De alguma forma, a narrativa neoliberal tem vindo a conseguir que os eleitores interiorizem que votar à direita é natural e votar à esquerda é perigoso. No Reino Unido esta receita deu resultado e as consequências estão à vista.

 

Nos próximos anos a União Europeia viverá coxa, com uma grande potência com um pé fora e outro dentro, e com uma parte de si mesma (A Escócia) pronta a substituir o todo, se ele decidir sair da União. Este contexto vai aliás levar em minha opinião a que também por medo, a maioria dos ingleses opte por continuar na União Europeia na sequência do prometido referendo.     

 

O neoliberalismo é uma rede entranhada entre os interesses económicos e financeiros e a sua representação política. Em contrapartida, as forças do centro esquerda não têm conseguido consolidar uma rede alternativa. Cameron contou com o apoio mais ou menos encapotado da sua família de interesses. Miliband pelo contrário pelejou sozinho, com alguma esquerda europeia a acusá-lo de ir longe de mais nos valores e propostas que defendeu e outra a considerá-lo frouxo e pouco ousado. Dividida, a esquerda deixou-se derrotar pelo medo dos cidadãos que querem optar por narrativas fortes e consistentes.

 

O quadro político em que se vão disputar as eleições na Península Ibérica é muito diferente daquele em que se disputaram as eleições inglesas. Mas as forças do medo também aqui se farão sentir. O desejo de mudança vai-se confrontar com as ameaças e os fantasmas dos que estão agarrados aos interesses como lapas. É preciso por isso aprender a lição. A direita não dá abébias. A esquerda se quer ganhar também não as pode dar.

 
Comentários

Desigualdades e Migrações



 

Quando pensamos num modelo de sociedade próximo do ideal de humanidade e dignidade, ocorrem-nos sempre os exemplos, que as estatísticas confirmam, dos Países Escandinavos, moldados por fortes sociais-democracias, com modelos bem-sucedidos de desenvolvimento sustentável.

 

A vida profissional e política já me tinha proporcionado várias vezes estar na Dinamarca e na Finlândia. Tive recentemente a oportunidade de completar o "puzzle", visitando a Noruega e a Suécia.

 

Os países escandinavos continuam a ser um exemplo único de igualdade de acesso às oportunidades, organização, tolerância e não corrupção. A sua tolerância tornou-os destino apetecido para muitos deserdados da globalização que ali procuram refúgio e oportunidades. Este movimento está a mudar a paisagem política e social desses Países de referência.

 

Hoje, as sociedades nórdicas estão profundamente divididas em relação à forma como devem receber e incluir os milhares de migrantes vindos de Países pobres que a elas afluem. Tornaram-se em consequência sociedades menos consensuais e mais crispadas. A extrema-direita xenófoba ganhou peso político e os sociais-democratas deixaram de ser os líderes das coligações de governo, embora na generalidade ainda as integrem.

 

Nas cidades, que visitei pude sentir crescentes sinais de exclusão. Ruas e bairros étnicos, pedintes e sem tecto nas esquinas, sinais de profunda desigualdade, não entre os nativos, mas entre os que chegando, vivem nas margens da sociedade.

 

A desigualdade e a pobreza são uma doença social que a globalização se encarrega de disseminar. A tolerância e a inclusão são a resposta necessária a esse fenómeno, mas se não combatermos as desigualdades na origem, dificilmente as conseguiremos combater com sucesso nas sociedades de acolhimento.

 

Vista da Escandinávia esta questão ainda é mais premente. Se estas sociedades não conseguirem ser inclusivas nenhuma outra conseguirá. O risco é que deixando de ser inclusivas para quem chega, deixem também de o ser para todos os outros.

 

O alerta é claro. Temos que combater as desigualdades como um desafio global. Atacar os movimentos obscurantistas e ajudar a reconstruir as instituições nos Estados falhados.

 

Fazer das migrações não um acto de desespero, mas um processo de mútua vontade. Não é um desafio fácil, mas é para já o maior desafio social que o mundo enfrenta.

 

 

 
Comentários

O Quarto D (Pela Dignidade)






 

Assinala-se por estes dias o quadragésimo primeiro aniversário da Revolução de Abril. Em Novembro fará 40 anos que a democracia se consolidou em Portugal. Quarenta anos que se iniciaram com um programa forte de mobilização traduzido nos 3 D de Democracia, Desenvolvimento e Descolonização.

 

Sobre cada um destes D já muito se escreveu. Cada um deles (o D de Descolonização evoluiu alguns anos depois para outro D mal amado, o D da Descentralização) está em permanente avaliação e todos já viveram melhores dias.

 

 Os D de Abril estão hoje ameaçados pela pobreza e pela desigualdade. Em sentido genérico somos uma democracia, desenvolvida e aberta, mas precisamos com urgência de cuidar de um novo D que pode pôr em causa tudo o que conquistámos. Temos que garantir a Dignidade das pessoas e a sua inclusão em comunidades e projetos de vida com sentido.

 

Tinha 14 anos quando aconteceu Abril. O que me recordo do tempo anterior é da névoa e do medo com que tudo era dito ou comentado. Das críticas ao regime ditas como sussurros, das entrelinhas, das desesperanças, da mesquinhez. É essa névoa que o frentismo austero das públicas virtudes e vícios privados que é marca de água de quem nos governa, voltou a estender sobre a nossa terra. É essa névoa que temos que romper com credibilidade e determinação.

 

A revolução abriu-nos as portas da integração europeia. Uma Europa hoje amarrada aos modelos em que as finanças se sobrepõem à felicidade a o bem-estar das pessoas. É nessa Europa que temos que lutar pelo quarto D de Abril. Pela Dignidade da soberania solidária, do combate à pobreza, do crescimento verde, inteligente e inclusivo.    

 

Não podemos ser submissos como é este Governo. Não podemos ser omissos como tem sido o Governo Grego na sua incapacidade de encontrar uma resposta de mudança no quadro duma leitura soberana dos Tratados. Temos que ser dignos. Dignos do nosso passado e do futuro que queremos. Dignos em nós mesmos.

 

É a garantia da Dignidade a medida mais certa para avaliar por onde mudar o ciclo nas próximas eleições e desse ponto de vista o quadro macroeconómico que o PS adotou como base para elaborar o seu programa é um bom exemplo.

 

 Fazer política para e com as pessoas para cumprir as contas, porque para acertar contas com as pessoas já nos bastaram estes quatro anos de liberalismo murcho.   

 

 

 
Comentários

Grandes Gestos




 

Visto do Alentejo, de Portugal e mesmo da Europa, o quotidiano está amorfo, atrofiado. A maioria das boas ideias morrem na praia da burocracia ou de qualquer Excel mal calibrado. A confiança no futuro esvai-se e cada vez é mais difícil sonhar (e é o sonho que comanda a vida).

 

As pessoas sobrevivem, com as pequenas grandes alegrias do dia-a-dia e com uma esperança secreta de que alguma coisa de estrutural mude. Desejam que 41 anos depois de Abril, o nosso País retome o caminho do progresso, do desenvolvimento e das oportunidades para quem cá nasceu ou quer viver.

 

 A verdade é que alguma coisa tem que mudar ou então a panela de pressão explode numa revolução social de efeitos incalculáveis.

 

 No marasmo geral todos os dias se vão dando pequenos passos, menos visíveis pela parafernália de comunicação em que hoje estamos mergulhados. No quadro europeu têm sido pequenos passos em frente que permitiram voltar a dar alguma liquidez aos mercado e a animar o consumo e o investimento. No plano nacional têm sido pequenos passos atrás, que mostram um emprego cada vez mais precário, um investimento anémico e um modelo económico errado e sem saída.

 

Sendo defensor de que o caminho se faz caminhando e que com pequenos passos (quando consistentes e orientados por uma visão estratégica global) se fazem grandes mudanças, julgo que para a Europa e para Portugal chegou um tempo em que são precisos grandes gestos.

 

Foi um grande gesto de Mario Draghi que salvou o Sul da Europa duma hecatombe financeira em dominó. Foram, noutro plano, grandes gestos de Obama que fizeram retomar as relações dos EUA com Cuba ou atingir um acordo Nuclear com o Irão.

 

Ando pelas ruas do meu País e sinto a vontade de mudança a borbulhar por todo o lado. As pessoas estão fartas deste governo, dos solavancos da sua governação e da insensibilidade das medidas que toma.

 

Mas sinto também que as pessoas já não se motivam pelas pequenas quezílias, pelas pequenas diferenças, pela disputa de décimas, pelo digo eu e dizes tu, pelos debates em torno dum caminho mais ou menos afastado mas tendencialmente paralelo.

 

 As portuguesas e os portugueses esperam um grande gesto de mudança. Eu acredito que o PS e a sua equipa serão capazes desse grande gesto.       
Comentários

Modo Propaganda





 

O designado programa de ajustamento, forma eufemística de designar a estratégia concertada e voluntária de empobrecimento da sociedade portuguesa que tem vindo a ser sistematicamente aplicada desde o início de funções do Governo Passos/Portas, cumpriu uma das suas componentes processuais. O Memorando com a Troika foi aplicado, não apenas na já dura versão inicial, mas numa versão ainda mais abrasiva em resultado da escolha ideológica e da vontade política da maioria.

 

O governo adotou a política de contração e corte que estruturava o memorando com a Troika (a que chamou reformas estruturais, embora as reformas necessárias não tenham passado um esboço rascunhado em forma de guião) como o seu modelo para governar e prometeu mesmo ser particularmente ousado e refinado na aplicação dessa políticas. Definiu o empobrecimento como sua prioridade e cumpriu na execução. Os resultados estão á vista.  

 

Enquanto esta maioria for governo, não obstante o fim deste ciclo processual do programa de ajustamento, as políticas de austeridade que o inspiraram continuarão em vigor e em aprofundamento permanente. A única coisa que mudará (já mudou aliás) será o discurso. Depois mudarão as políticas, mas apenas se esta maioria for amplamente derrotada nas urnas como merece.

 

É sobre o novo discurso da maioria que vos quero falar um pouco mais neste texto. A mudança do discurso tem tido duas componentes particularmente relevantes. A primeira é a antecipação de resultados da aplicação do próximo ciclo de fundos estruturais. O governo em fez de falar do Estado atual do País, descreve o “leite e mel” que correrá daqui a uns anos. Este “golpe de mágica” discursiva visa fazer com que as pessoas não pensem nas dificuldades que estão a viver e se projetem numa imaginária retoma, associando a retoma a este governo. Ora este governo e retoma são realidades incompatíveis. Só por encantamento se podem ligar.  

 

O segundo “golpe de mágica” baseia-se na ideia de que os portugueses fizeram grandes sacrifícios mas agora que o mau tempo passou e está tudo bem. Infelizmente não é assim. Mesmo que fosse essa a vontade do Governo a destruição do tecido económico e social foi tão profundo que só uma terapia longa e assertiva o pode fazer recuperar. É não é certamente quem fez a ferida que a poderá sarar.

 

O governo entrou em modo propaganda. Em democracia isso é mais ou menos inevitável. Mas o que vai decidir as eleições será a forma como os portugueses se sentirem e a confiança que tiverem nas propostas de alternativa. A propaganda já teve dias melhores no terreno das escolhas políticas.

 

  
Comentários
Ver artigos anteriores...