RTC Forte




 

Será muito pouco original o início desta crónica. O tempo passa e a Europa patina. A sua dinâmica económica está prestes a atingir o zero absoluto. As taxas de juro reais estão perto do zero (nalguns países são negativas) e mesmo assim o investimento continua a ser anémico. É preciso um tratamento de choque. Uma receita ousada. Uma chave para desbloquear o impasse. Eu receito RTC forte e quanto mais e mais depressa melhor.

 

O RTC forte é um remédio óbvio mas nem por isso menos necessário. A sua fórmula que não necessita patente, inclui 33% de recuperação, 33% de transição e 33% de convergência. Sobra 1%. Reservo-o à memória para que não se voltem a cometer os erros que se cometeram, empobrecendo os povos e destruindo as economias.

 

Recuperação com investimento público e privado capaz de fazer mexer a economia e criar uma procura interna saudável, condição basilar para a competitividade externa.

 

Mas esse investimento não pode dirigir-se aos mesmos sectores que no passado não nos permitiram conduzir à liderança. Tem que ser, para usar uma linguagem com o seu quê de futebolística, uma recuperação em transição. Transição para uma nova economia baseada em inovação limpa, novas energias, conhecimento e aproveitamento dos novos desafios do mercado digital.

 

A União Europeia tem que passar ao ataque. Com as atuais regras do jogo global, como já expliquei em texto anterior, somos perdedores por natureza.

 

 Mas para jogar ao ataque tem que reforçar a sua coesão e a sua solidariedade. Daqui provêm a necessidade da convergência. Uma convergência que não seja os mais ricos a pagar aos mais pobres mas sim a criação de condições de igualdade para que ricos e pobres possam ter mobilidade e puxar pelo interesse comum.

 

A harmonização fiscal, de que tanto se tem falado ultimamente é um bom exemplo de convergência que não significa necessariamente transferências financeiras directas, embora essas sejam legítimas e justificadas sempre que compensam assimetrias de desenvolvimento ou de mercado.   

 

Em síntese e para não demorar muito. RTC Forte senhor Juncker. RTC Forte caro Passos. RTC Forte Sra. Merkel. RTC forte cara e caro leitor. Recuperação, Transição e Convergência. Um futuro melhor.

 

 
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A Terceira Globalização




 

 

Deus criou o Universo. O Homem criou o mundo. Os Portugueses criaram a primeira globalização. A Europa liderou a segunda globalização em que ainda estamos. Infelizmente já não lidera.

 

Temos a energia mais limpa, mas também a mais cara do Planeta. Temos o modelo social mais desenvolvido mas também o mais oneroso. Temos o sistema científico mais robusto mas também o que menos cria riqueza e emprego por unidade de investimento. Temos o maior repositório de informação, mas também o mais desaproveitado em termos de utilização para a oferta de produtos e serviços.

 

Perante este facto, os acomodados ou os protegidos defendem o desarmamento da identidade europeia. O apagamento da história e dos valores em nome dum nivelamento contabilístico, sem colocar o bem-estar e a realização das pessoas como a variável chave da equação.

 

Se a energia é cara destrua-se o ambiente para a tornar barata. Se o modelo social onera os custos acabe-se com ele ou faça-se apenas uma caricatura barata. Se a ciência não dá lucro imediato asfixie-se a ciência. Se temos informação que outros usam e nós não, ergamos muros e barreiras para nos iludirmos com a falsa segurança e protecção.

 

Este caminho não nos leva a lado nenhum. Ou antes, leva-nos ao empobrecimento, à destruição da classe média, ao aumento das desigualdades, da pobreza e da exclusão.

 

A Europa (e Portugal) só tem um caminho. Serem a semente e o laboratório de uma nova globalização em que os valores humanistas, voltem a ser fatores de competitividade.

 

Uma globalização centrada nas pessoas, na qualidade de vida, nas comunidades sustentáveis e numa nova combinação inteligente de saber e tecnologia para colocar a energia e a informação ao serviço do Homem.

 

Ou nos adaptamos e sucumbimos numa realidade iníqua ou transformamos essa realidade, fazendo com que os objectivos, as prioridades e as condições de sucesso sejam diferentes. 

 

Por isso caros amigos que comigo partilham estas reflexões, temos que ser capazes de dar início a uma nova era de abertura e progresso.

 

Chamar-lhe-ão muitos nomes. Terceira globalização é apenas um dos nomes possíveis. Ou terceira revolução industrial como lhe chama Rifkin? Socialismo 2.0 à moda de Tapscott? Globalização 3.0 para seguir a tendências da grafia digital?

 

 Tenha o nome que tiver, importa mais a "coisa" do que o seu nome. Mas a "coisa" importa mesmo.

 

 

 
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Buracos Negros




 

Não é apenas o universo que na sua textura tem alguns buracos negros. A União Europeia, que ao contrário de algumas teorias sobre o universo está longe de ser una, está pejada desses espaços aparentemente vazios mas em cuja consequência a distribuição de riqueza é alterada e as desigualdades são fortemente acrescidas.

 

Países como o Luxemburgo, a Holanda, a Irlanda e o Reino Unido têm legislações criativas que permitem às empresas acomodar os seus lucros a taxas minimalistas de cobrança fiscal, tendo por consequência que os cidadãos europeus são desacomodados dos seus pecúlios para pagarem a crise e assumirem sozinhos o funcionamento do Estado.

 

A harmonização fiscal, ou a sua falta, é uma das peças determinantes em falta na arquitetura europeia. Depois do que se soube agora sobre a lavagem de lucros no Luxemburgo tem que passar a ser uma prioridade absoluta do novo Presidente da Comissão Jean Claude Juncker. 

 

Sejamos claros. Juncker trouxe uma nova esperança à UE e muitos são os poderes que o gostariam de desalojar e ver pelas costas. Mas ninguém está acima da lei.

 

 Se Juncker compactuou com processos ilegais tem que ser penalizado por isso. Se apenas foi cúmplice indireto de uma imoralidade, então a prova que tem que fazer desde já é liderar o combate a essas práticas e acabar com os buracos negros, a que também se chama eufemisticamente paraísos fiscais, no território da União.    

 

Alguns dos leitores perguntarão se um homem que compactuou com práticas de lavagem imorais de lucros pode acabar com elas.

 

 Cito aqui Dominique Strauss-Kahn, o ex-Presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI) que perguntado sobre o sucesso de Mario Draghi, o atual presidente do Banco Central Europeu (BCE) como regulador, afirmou que isso se devia a ele ter estado antes do lado dos especuladores. Conhecia-lhes as técnicas e as práticas e por isso podia combatê-los melhor.

 

 Pois assim é também com Juncker. Sabe bem como se contorna a equidade. Não tem desculpa para não a repor. É o caminho estreito por onde tem que afirmar a sua liderança, sob pena de à história como mais um meteorito engolido pelo buraco negro dos grandes interesses financeiros.

 

 

 

 

 

 

 

  
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Portugal, o país-rede em risco (texto publicado no Semanário Expresso 8/11/14 pg.34




 

 

Portugal afirmou-se sempre ao longo da sua história como um país-rede. Uma plataforma de  comunicação e troca de culturas, de saberes e de comércios que lhe garantiu a identidade e a própria soberania. Foi essa textura reticular, interativa, cerzida e sedimentada pelo tempo, que permitiu aos portugueses vencerem múltiplos desafios e adversidades. Não raras vezes, contra ventos e marés.

 

Consciente dessa realidade, terminada a fase do império colonial, Portugal apostou fortemente no reforço das redes internas e de ligação ao exterior. Nuns casos essa aposta transformou-se em realidades concretas e competitivas. Noutros casos. as apostas não passaram do papel.

 

Entre os projetos-chave inexplicavelmente adiados, o mais marcante terá sido o falhado desenvolvimento das redes ferroviárias transeuropeias. Sérias consequências e  prejuízos acarretará essa omissão, se não for corrigida, por exemplo na optimização da rede de portos e, em particular, do Porto de Sines.

 

No entanto, existe trabalho meritório realizado em tempo útil na generalidade das redes. Alguns alegam que terá havido um excesso na aposta rodoviária, mais evidente talvez na malha interna do que na malha de ligação externa.

 

No domínio dos portos e dos aeroportos é um facto indesmentível que Portugal conseguiu obter ganhos de eficiência e de acessibilidade muito importantes nos últimos  25 anos. Lisboa transformou-se no primeiro porto de cruzeiros da Europa e a TAP posicionou-se como companhia de charneira das conexões europeias com o Brasil e com os restantes países de língua oficial portuguesa. O 'hub' de Lisboa constitui hoje a base estratégica para a sua sustentabilidade global.   

 

Um destaque particular merecem os resultados conseguidos nas redes de nova geração. Nas redes de energia, Portugal é já uma referência global, com uma capacidade  fortemente potenciada após a interconexão com as redes de alta potência de além-Pirenéus.

 

Nos fóruns internacionais em que se discute a resiliência das redes de distribuição de energia face à volatilidade das renováveis, o conhecimento português é sempre causa de admiração. Felizmente, também, isso traduz-se cada vez mais em oportunidades de negócio.

 

A rede nacional de distribuição de energia está carregada de conhecimento e de inteligência, o que lhe permite acomodar períodos em que toda a electricidade consumida é de origem renovável com taxas médias que ultrapassam os 50%. Aos países da UE que resistem à meta de 27% de incorporação de renováveis, com o argumento da resiliência das redes, Portugal já demonstrou que está descoberto o caminho tecnológico para produção de energia de fontes múltiplas.

 

E descoberto está também o caminho para a colocação inteligente de redes de telecomunicações. A qualidade das comunicações e do acesso à banda larga em Portugal é uma enorme vantagem competitiva e tem permitido atrair a localização de grandes centros de dados e de prestação global de serviços baseados em informação.

 

Mas esta história de sucesso de um país que está melhor preparado para os desafios da sociedade da informação e do conhecimento do que para os desafios da sociedade industrial, tem um senão. Os activos críticos para este desígnio estão a ser alienados de forma irresponsável por quem nos governa. Primeiro foi a REN, prepara-se agora para ser a PT e depois a TAP. Tudo isto sem que pelo menos tenha sido regulamentada e aplicada a cláusula de salvaguarda estratégica que consta da Lei das Privatizações.

 

Somos um país- rede mas quem nos governa não hesita em alienar aquilo que nos diferencia. É preciso travar esta onda para podermos prosseguir os caminhos do futuro.  Se não o fizermos, encontrá-lo-emos definitivamente bloqueado pelos erros do presente.

 

 


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Socialistas e com muita honra!




 

O Primeiro-ministro Francês Manuel Valls gerou polémica por ter questionado numa entrevista recente se faz sentido que o Partido Socialista Francês (PSF) se continue a chamar socialista. Para aquele dirigente do PSF a dimensão social não tem necessariamente que ser traduzida pela expressão consagrada pela história. Exemplificou mesmo com o exemplo de Inglaterra em que o Partido que empunha a bandeira do Socialismo Democrático se designa de Trabalhista ou de Itália onde é simplesmente designado por Partido Democrático (depois da descaraterização do Partido Socialista Italiano às mãos de Bettino Craxi e dos seus seguidores).

 

Numa outra vertente da análise, Don Tapscott num texto a propósito dos 20 anos do seu livro revolucionário sobre a nova economia digital, insinuava que a apropriação do termo socialismo por Marx e todas as correntes que dele derivaram deveria caducar, já que “socialista” é a nova sociedade baseada em redes sociais cada vez mais fortes. O fim do Capitalismo consumou-se. Em vez dele, alega Tapscott, surgiu um Capitalismo 2.0 que com as suas contradições deveria evoluir para um novo “socialismo” em rede se o conceito não estivesse já “ocupado”.

 

Mais do que discutir as marcas é fundamental discutir os conteúdos. No sul da Europa o socialismo tem uma longa tradição de afirmação democrática face à emergência de Partidos Comunistas fortes e com perfil autoritário. Por isso os Partidos que representam o socialismo democrático e a social-democracia avançada devem continuar a chamar-se e a assumir-se como Socialistas. O PS é uma grande força e uma grande “marca” da democracia portuguesa e como tal deve continuar.

 

Existem contudo franjas da sociedade que não se identificam com a delimitação psicológica traduzida pela marca histórica da designação socialista ou que pretendem uma participação feita fora do quadro da militância partidária tradicional.

 

 A sociedade em rede implica flexibilidade e coloca novos desafios de mobilização. Não pode ser fechada nem conservadora no plano conceptual. O Partido Socialista não se deve descaracterizar enquanto tal, aproveitando antes a força da sua coesão para se abrir sem receios a parcerias que criem o espaço para uma aliança progressista e transformadora em Portugal.

 

 Uma aliança com a sociedade e com os seus movimentos de cidadania ativa, cujos valores se compaginam com os valores do PS. É um caminho que tem estado aliás a ser percorrido.

 

Socialistas e com muita honra. Tanta honra quanto abertura para o diálogo com as forças progressistas da sociedade, porque todos somos poucos para recolocar Portugal na senda do crescimento justo e sustentável.
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Liberais (em causa própria)


 




Na minha recente intervenção no plenário do Parlamento Europeu, feita durante a sessão que antecedeu a votação do novo colégio de Comissários liderado por Juncker, afirmei que o ataque feito às economias dos Países do Sul está a ter um efeito boomerang e a fazer pagar caro agora a economia dos outros povos europeus, incluindo a economia alemã.


A estagnação da Alemanha é a prova que faltava para poder dizer sem receio e com frontalidade que a receita da austeridade falhou. Sempre me pareceu evidente aliás que iria falhar e sempre aqui o escrevi. Agora o falhanço é oficial e confirmado pelos indicadores.

 
A economia é a ciência do equilíbrio entre a oferta e a procura e entre as necessidades e os recursos. Os gurus da austeridade incentivam dois movimentos que provocam desequilíbrio e são como tal inimigos do equilíbrio. Por isso é que me custa chamar-lhes ultraliberais ou mesmo só liberais. Os liberais à séria deixam funcionar o mercado doa  a quem  doer. Estes liberais em causa própria, escolhem a dedo em quem vão bater, quem vão empobrecer e quem vão enriquecer.


Duas palavras-chave marcam a receita falhada. Mais produtividade que significa produzir mais com os mesmos recursos e mais competitividade, que na versão da receita da austeridade significa salários mais baixos e menos custos de produção. O investimento e o incremento do rendimento disponível das famílias são ideias proscritas.

 

Por isso a economia aumenta o potencial produtivo, emprega cada vez menos gente, paga cada vez menos e depois não tem procura sustentada e afunda, deixando à tona os paraísos fiscais e os grandes conglomerados atulhados de tesouros. Tão atulhados que por vezes alguns são atirados borda fora com grande estrondo.

 

O afundamento está a provocar uma janela de oportunidade para quando as águas baixarem. Mudemos a paisagem económica e política. Esta receita falhou.

 

 

 

 



 

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