Rio 2016 - O Elogio da Diferença




Chegaram ao fim as trigésimas -primeiras Olimpíadas da era moderna, realizadas na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. Na perspetiva em que as pude seguir, com os filtros normais da comunicação que fui recebendo, constituíram um inegável sucesso e uma demonstração de diversidade e de identidade que foram muito saudáveis para o futuro do mundo.

Daqui a quatro anos, em Tóquio 2020 teremos certamente umas Olimpíadas com uma organização milimétrica, com falhas mínimas, onde se espera seja adotada uma nova geração tecnológica, designadamente as redes de comunicação de quinta geração na sua plenitude.

Os jogos japoneses serão o reflexo natural de um povo com uma cultura de racionalização e otimização muito marcadas, tal como os jogos brasileiros refletiram a irreverência da latinidade temperada por um caldo de culturas miscigenadas, tão bem representadas nas alegorias de abertura e encerramento.  

Um dos riscos da globalização é apagar a riqueza da diferença e o orgulho na especificidade de cada região e de cada povo e conduzir à prevalência dos estereótipos impostos pelos padrões da comunicação dominante.

Por razões que não tiveram a ver com as Olimpíadas, tive a oportunidade de viajar durante uma semana pelo Brasil no mesmo período em que o Rio 2016 estava a arrancar.

Deparei-me no inicio com um enorme desencanto, não apenas pela situação económica e política difícil que o Brasil atravessa, mas também pela sensação, agitada pelas críticas nalguma imprensa internacional, de que o Brasil não estaria à altura de organizar com sucesso o maior evento desportivo do planeta. Combati essa ideia junto das pessoas com que falava, explicando a enorme oportunidade de afirmação pela diferença que os jogos constituíam.

Há medida que os dias iam passando a atitude ia mudando. Muitos brasileiros começaram a vestir a camisola do País e a camisola dos jogos. Algumas medalhas ajudaram a reforçar a confiança. O ouro no Futebol frente à Alemanha fez transbordar o orgulho, embora eu já lá não estivesse para poder testemunhar ao vivo esse momento alto.

As Olimpíadas do Rio2016 contêm uma lição determinante. Não há nem pode haver uma única forma mecânica e oficial de fazer as coisas acontecerem. Cada povo deve ter orgulho da sua cultura e usá-la para se diferenciar e vencer. O Brasil conseguiu à sua maneira. Merece o nosso elogio.

 




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Quanto Custa ser Feliz ?




 

Um dos livros que me sugeriram para leitura este verão foi “Um guia breve para clássicos filosóficos” de James M. Russell editado este ano em Portugal pela Temas e Debates. O guia é mesmo breve no tratamento que faz de cada clássico e de cada autor. Tem no entanto a vantagem de colocar em paralelo e com o mesmo nível de síntese diferentes mundovisões, muitas delas incompatíveis entre si.

 

A filosofia é tão necessária à vida consciente como os recursos materiais básicos que nos permitem sobreviver. Não me refiro apenas à filosofia como saber estruturado, mas também à filosofia como conjunto de ideias e de projetos que dão identidade às escolhas de vida que cada pessoa faz.

 

Escolha benévola ou reprovável à luz dos valores prevalecentes na sociedade, essa escolha é obrigatória, dando sentido à frase popular que de facto, no sentido estrito em todos temos um quadro de perceção do mundo em que vivemos, todos somos filósofos.

 

Quis o acaso das leituras soltas, que acabado de percorrer o guia antes referido, me tenha deparado com um interessante texto de Frei Betto intitulado “Quanto custa ser feliz? inserido num breve livro coletivo editado no Brasil pela Vozes sob o título “Felicidade, foi-se embora?” onde se inclui o texto do frade dominicano e textos do teólogo Leonardo Boff e do professor de Teologia Mario Cortella.

 

E quanto custa ser feliz? Na minha interpretação cruzada das leituras que aqui refiro, reforcei uma ideia que já aqui tenho partilhado. O preço de entrada para se poder ser feliz é ter uma filosofia, ou seja, um projeto e um sentido de vida, naturalmente flexíveis, mas estruturalmente coerentes. 

 

Esta abordagem é muito interessante e conflui com a ideia da felicidade como ausência de medo, que costumo usar nos meus escritos sobre o tema. Se a felicidade é a diferença entre o sentido que definimos para a nossa vida e aquilo que de facto conseguimos, então quem não tiver uma filosofia de vida não é candidato a ser (se sentir) feliz.

 

Note-se que nesta abordagem não entra a dimensão ética. Por isso se pode ser feliz a fazer o bem e a fazer o mal. Para a qualidade da sociedade em que vivemos para além da filosofia também a ética é determinante.

 

Outra questão importante é que a felicidade não implica necessariamente o prazer ou a alegria. É claro que felicidade, alegria e prazer são complementares e geram boas sinergias, mas vivem uns sem os outros, sobretudo por provêm de fontes diferentes e percorrem diferentes linhas do tempo, que se vão cruzando e descruzando ao longo da vida e dos seus fragmentos.

 

Diz o povo que de “filósofos e de tolos todos temos um pouco”. Todos não. Alguns deixaram secar o seu sentido de vida no deslumbramento do consumismo ou no sofrimento do quotidiano e outros levam-se a si mesmos demasiado a sério. Assim mais dificilmente se sentirão felizes.   

 

 

 

 

 
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Agosto




  

Embora muitos não tenham férias e outros as vão repartindo cada vez mais ao longo do ano, Agosto continua a ser visto e considerado na consciência coletiva como o mês das férias.


Um mês adequado, por isso, para refletir sobre como a mudança na maneira como vivemos o quotidiano, também se reflete na forma como se vivem as oportunidades diversas de sair desse quotidiano.

 

Há inúmeras opções de fazer férias, mas todas elas têm em comum uma quebra mais ou menos radical do quotidiano. Podem implicar mudança física, deslocações mais ou menos longas no tempo e na distância, ou significarem simplesmente fazer coisas diferentes no mesmo sítio, ler, conviver, dar atenção a algo de que no tempo normal não podemos tratar ou cuidar.

 

A quebra da rotina quebra também as barreiras que impomos a nós próprios para pensarmos menos sobre a vida e sobre o sentido da vida e para surfarmos com maior leveza as dificuldades, sem os riscos de nos afogarmos na onda da complexidade e sobretudo da complicação.

 

Já aproveitei muitos destes textos estivais para desafiar os meus leitores para usarem também as suas férias, quando as podem ter, para fazerem um balanço do ano que finda e com ele prepararem a mobilização para um novo ano, com uma participação ativa no combate que temos pela frente, de tornar nas pequenas e nas grandes coisas, o nosso mundo mais livre, menos desigual, mais justo e mais solidário.

 

Mas o mundo de hoje, com a emergência da sociedade e da economia da informação, torna mais densas e alargadas as rotinas que temos que mover para fazer das férias uma quebra do quotidiano.

 

Partilhamos tantos impulsos, tantos dados, tantas noticias que nos vemos obrigados a desenvolver uma matriz de leitura, ou seja, um quadro automático de seleção sobre o que nos interessa e o que não nos interessa, para nos traçar um cenário do dia-a-dia que seja possível de acompanhar e de certa forma controlar.

 

A fronteira entre a curiosidade mental na procura do novo e do inesperado na forma como fruímos o dom extraordinário da vida e a inquietude gerada por essa curiosidade, é uma fronteira ténue, mas que pelo menos nas férias vale a pena arriscar quebrar.

 

Olhar o mundo para além as ideias feitas, repensá-las à luz da mudança que vivenciamos todos os dias, ousar aplicar novos padrões de leitura, conhecer outros territórios do saber e reforçar a nossa capacidade de sermos protagonistas do que acontece. Vale a pena tentar. Bom Agosto.

 

 

 

 

 
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A Força de Acreditar





Recentemente, numa animada tertúlia com amigos de diversas formações académicas, experiências profissionais, posicionamentos ideológicos e opções espirituais, a conversa solta conduziu à reflexão sobre um tema muito curioso; até que ponto a fé católica publicamente conhecida do selecionador nacional Fernando Santos contribuiu para a vitória da Seleção Nacional de Futebol no Europeu de França?    

Mais curioso ainda, é que fazendo parte da tertúlia crentes de diversas religiões e de diferentes espiritualidades, agnósticos e ateus, todos acabaram por concluir que a fé do selecionador tinha sido um dos componentes chave para as circunstâncias que nos levaram à vitória.

No consenso da tertúlia, isso não aconteceu em particular por Fernando Santos ser católico, mas por ser crente. Porque a força de acreditar se transmite e dissemina, atrai energia positiva, propaga pensamento ganhador, gera confiança, afasta o medo nos momentos mais difíceis, deixa sempre entreaberta a porta da vitória ou do cumprimento daquilo em que se acredita.

Pela sua composição a tertúlia não ousou fazer avaliações comparativas sobre o “ranking” das crenças. Terá a mesma importância acreditar na força do bem como acreditar na força do mal? Se em vez de um selecionador acreditar na força agregadora de uma entidade boa, se respaldasse na crença de que uma entidade maléfica enfraqueceria os adversários até os vergar à derrota, isso teria o mesmo efeito?

Deixo estas reflexões inacabadas à atenção do leitor, quem sabe para animar algumas conversas mais descontraídas de fim de tarde estival.

Por mim, destaco a importância do propósito e do sentido para que na vida se consigam os objetivos que definimos. E afirmo a minha própria crença que esses propósitos e esses sentidos têm mais força se iluminados por um sentido do bem comum, definido em cada momento e em cada circunstância.

Voltemos ao futebol. A crença num resultado que conduzia ao bem comum de uma equipa e de um povo, não é contrário ao direito das outras equipas ambicionarem o mesmo?

A resposta para mim é não. Normalmente a força de acreditar é um jogo de soma positiva. No desporto a força de acreditar gera no limite um equilíbrio, num patamar superior de qualidade e entrega.   

Curioso também é que a força de acreditar também muda a vida. Algumas coisas boas que têm acontecido recentemente ao nosso País resultam dum aumento da confiança dos portugueses em si próprios, libertados que foram das narrativas derrotistas de Cavaco e Coelho e inspirados que estão pela combatividade empenhada de Marcelo e Costa. Haja força.
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Indignação (com as eventuais sanções)






Pululam pelos “media” e pelas redes sociais as mais diversas justificações e explicações sobre a sanha persecutória que leva a Comissão Europeia (e o Conselho) a insistirem na aplicação de sanções a Portugal e Espanha por, no que diz respeito a Portugal, ter sido detetado um desvio pontual, irrelevante e justificado, na execução orçamental de 2015 efetuada pelo Governo PSD/PP.

Uma coisa é evidente. Não há racional técnico possível que explique a aplicação de sanções, que a serem aplicadas não contribuiriam em nada para resolver as dificuldades de equilíbrio macroeconómico que o País enfrenta. O simples anúncio reiterado da sua eventualidade, já está a penalizar fortemente a economia nacional.

 Marcelo Rebelo de Sousa, no quadro da sua magistratura patriótica de influência afirmou recentemente “não fazer sentido pensar em sanções da União Europeia a Portugal”, deixando claro que “não há uma mínima lógica” nessas eventuais sanções.

É óbvio que a insistência nas sanções é uma escolha política e não técnica ou jurídica, de uma parte da Comissão Europeia e do Conselho Europeu. A cobertura política que Pedro Passos Coelho tem dado a essa escolha contra Portugal, já se refletiu na sua perda de popularidade e na redução das intenções de voto no seu partido expressas nos estudos de opinião.

 Os portugueses estão legitimamente indignados com o comportamento das instituições europeias em relação a este tema e não lhes faltam razões para isso. Os graves danos causados à nossa economia têm consequências na nossa qualidade de vida, nas oportunidades criar emprego e de atrair investimento e no custo do dinheiro para investir.

 Uma eventual suspensão de fundos estruturais, interromperia e inviabilizaria projetos estruturantes para o futuro e que foram aliás elogiados no seu racional pela Comissão Europeia no quadro da análise do Programa Nacional de Reformas.

O Governo, a Assembleia e o Presidente da República têm vindo a lutar firmemente contra a eventualidade das sanções. As portuguesas e os portugueses têm o direito e o dever de se indignarem com essa possibilidade nas comunidades que integram, nas associações a que pertencem, nos projetos em que estão envolvidos, fazendo ouvir democrática e ordeiramente a sua voz de repúdio junto de quem tem que decidir.

Como membro do Parlamento Europeu, participarei em Setembro num debate (a designação técnica é diálogo estruturado) sobre as eventuais sanções a Portugal. Desejo que seja um debate sério e profundo abrangendo todos os temas em jogo, ou seja a capacidade de Portugal escolher no seio da União Europeia um caminho de desenvolvimento financeiramente rigoroso e socialmente justo. Com crescimento e emprego em vez da austeridade. Com esperança em vez de medo. Com os portugueses e não contra os portugueses.

   
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Qualifiquem-se Porra (vernáculo alentejano)




Para os menos habituados ao vernáculo alentejano, esclareço que o título deste texto se inspira na pichagem que um grupo de jovens da JS do Baixo Alentejo colocou em maio de 1994 na parede de um pontão inacabado da Barragem do Alqueva. O “Construam-me Porra” ali escrito no inicio da última década do século XX transformou-se num ícone da determinação e da vontade. A barragem construiu-se e é hoje um importante suporte ao desenvolvimento socioeconómico regional. 

Mas há mais a construir na nossa terra. A qualificação das nossas gentes é o mais prioritário. O mundo está a mudar e a economia também. Milhares de empregos tradicionais vão ser perdidos ou deslocalizados. Em simultâneo, milhares de novos empregos vão ser criados pela transição energética e pela revolução digital. O que é que separa uns dos outros? A qualificação necessária, obviamente.

Em Portugal 2 em cada 5 trabalhadores não tem as qualificações adequadas para as funções que desempenha. Em relação às funções que potencialmente vão ser necessário ocupar, o diferencial não está quantificado, mas será muito maior.

No Alentejo, com uma elevada taxa de desemprego entre os jovens, a carência de recursos humanos nos novos domínios dos serviços e tecnologias da informação é enorme. É urgente um esforço conjunto das pessoas e das instituições pela qualificação e pela requalificação, como condição de empregabilidade, de dignidade e de fixação no território de empresas e famílias.

Em 10 de Junho deste ano a Comissão Europeia lançou um programa para responder ao deficit de qualificações e competências profissionais na União Europeia. O programa designado “Uma nova agenda de competência para a União Europeia” engloba dez linhas de ação calendarizadas a concretizar até ao final de 2017, visando “trabalhar em conjunto para reforçar o capital humano, a empregabilidade e a competitividade”.

Este programa assegura a todos os cidadãos europeus uma garantia de competências (avaliação, formação, reconhecimento) na linha do que foi a prática percursora do Programa Novas Oportunidades em Portugal, propõe uma revisão geral dos referenciais de competências, integra uma maior aposta no ensino vocacional, inclui a criação de programas de qualificação para migrantes e refugiados, prevê o desenvolvimento de programas de qualificação especializados para “clusters” empresariais, garante o fornecimento de informação atualizada sobre necessidades de mercado e propõe-se fomentar uma coligação de parceiros para responder ao deficit de competências digitais.

Os instrumentos e os financiamentos estão disponíveis. A necessidade e a oportunidade são óbvias. Por isso, caros leitores, se estão no inicio ou no meio de um percurso profissional, não hesitem. Qualifiquem-se porra!       


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