Europa - Unidade e Diversidade

O mundo está cada vez mais perigoso. O enfraquecimento político da América, sem que isso corresponda a qualquer redução do seu fabuloso arsenal bélico, aumenta fortemente os riscos e exige da União Europeia (UE) uma capacidade acrescida de capacidade de defesa e de intervenção moderadora num quadro multilateral.

Para ser um ator global forte, na segurança, no comércio ou no clima por exemplo, a União Europeia (UE) tem que assumir um discurso comum de unidade e convergência de posições. Essa unidade necessária para a ação global não é no entanto contraditória com a afirmação das identidades e das prioridades nacionais, regionais, locais e individuais. Contrapor unidade e diversidade é uma falácia propalada por quem quer ver a UE fragmentada e fraca nos cenários geo políticos e geo estratégicos globais.

O que torna a Europa forte é a sua matriz múltipla, feita de percursos e histórias diversas e de povos e comunidades com tradições, experiências e orgulho próprio. Essa diversidade tem sido aliás incentivadanos programas locais, regionais, nacionais e também nos programas apoiados localmente, nacionalmente por recursos europeus. O ano de 2018 é o ano Europeu do Património Cultural e o seu programa releva a riqueza múltipla dos territórios europeus

Os defensores do ideal europeu que são lúcidos apostam na diversidade e na força das nações que integram o projeto europeu, porque não o fazer significaria a prazo a morte desse projeto. O que nos une são os valores partilhados e a capacidade de em conjunto salvaguardarmos melhor a paz e a prosperidade e conseguir melhores condições de vida para as pessoas que povoam as nações da península europeia integradas na UE.

Qualquer união entre Estados que não seja natural, mutuamente benéfica e aceite pela maioria dos cidadãos será uma união fraca e frouxa. Alguns dos que querem fragmentar a Europa usam a subtileza de exacerbar a normalização tecnocrática para gerar a revolta dos cidadãos.

Temos que combater os que querem uma Europa sem rosto e sem identidades, com o mesmo vigor democrático que combatemos os que simplesmente querem fazer implodir o mais extraordinário projeto político global das últimas décadas, porque uma União ao mesmo tempo una e diversa é uma Europa que vale a pena e que faz falta no mundo e na vida de cada um de nós. 

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Sol, Vento, Água e Floresta

Com o avanço progressivo da concretização da União da Energia, que traduz a aposta da União Europeia na transição energética, nas energias renováveis, na eficiência energética, na diversificação de fontes de abastecimento e na mobilidade elétrica, para referir apenas alguns dos vetores chave do novo mercado europeu da energia, a aposta que Portugal tem vindo a fazer há mais de duas décadas nas energias limpasganha particular significado.
   
Após uma sementeira porfiada, que significou muitos benefícios para a indústria nacional, para a balança de pagamentos, para os centros de conhecimento e para o ambiente, mas também significativos custos refletidos na fatura das empresas e das famílias, chegou o tempo de Portugal colher os frutos do investimento feito.

Num mundo global e diversificado não é desejável paraPortugal ficar dependente de um único produto, com em tempos aconteceu com as especiarias da Índia ou o ouro do Brasil. As nossas novas especiarias são a água, o vento, o sol, a floresta e com eles podemos gerar riqueza de formas diversas, respeitando a natureza e melhorando a qualidade de vida. Se bem aproveitadas, de forma integrada, estas especiarias serão o ouro que impulsionará uma nova etapa de crescimento sustentável, cujos primeiros sinais já são perceptíveis.

Produzir energia renovável para substituir importações de combustíveis fósseis ou energia nuclear e exportar para Países com menos capacidade produtiva aproveitando as novas interconexões planeadas, é um dos caminhos que conhecemos bem e temos agora que percorrer com maiores níveis de incorporação e transação.

Uma outra linha de investimento de elevado potencial é a requalificação do património construído, incrementando a eficiência energética nos edifícios e nos espaços públicos e reforçando a incorporação de energia produzida com recursos endógenos, de forma centralizada ou distribuída.

Finalmente, nesta análise não exaustiva, a eletrificação do sector dos transportes é fundamental e constitui uma grande oportunidade. Portugal tem todas as condições para prosseguir a sua aposta em ser o laboratório vivo de uma mudança estrutural que acontecerá em todo o globo, mais cedo ou mais tarde.

País médio na dimensão e sem grandes riquezas minerais, Portugal procurou durante séculos em todo o globo os recursos que garantiram a sua independência. Hoje os  recursos chave são aqueles que sempre tivemos aproveitados com as novas tecnologias disponíveis. Sol, vento, água, floresta. Preservemos e aproveitemos a riqueza que temos.
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O Alentejo e os Comboios

Portugal fez uma aposta forte nas acessibilidades rodoviárias, mas por opções sucessivas de vários governos, o mesmo não foi feito em relação à ferrovia. Muitas regiões do País perderam o acesso a essa infraestrutura essencial e outras viram o serviço reduzido. 

A boa notícia é que um novo e importante projeto ferroviário está a nascer no contexto do desenvolvimento do “hub” portuário, energético, logístico e industrial de Sines e da necessidade de o ligar às redes transeuropeias através da construção de um itinerário de mercadorias em bitola europeia. Este eixo ligará Sines à fronteira de Elvas/Caia e daí ao resto da Europa. 
Várias intervenções incluídas no projeto já foram concluídas e no primeiro trimestre deste ano será lançado o concurso para a construção do troço entre Évora e Elvas, num investimento de 422 milhões de Euros, com um co - financiamento europeu de 158 milhões de Euros.   

O desenvolvimento da plataforma de Sines e do arco Sines - Setúbal - Lisboa é em si mesmo um processo muito positivo para Portugal e para o Alentejo, mas temos que irmais longe e explorar todas as potencialidades do projeto para o desenvolvimento do território alentejano atravessado pela nova infraestrutura, além de mitigar os potenciais impactos menos positivos. 
O caso do traçado no atravessamento de Évora é um exemplo das várias questões que devem ser resolvidas em diálogo com as comunidades e os seus representantes. Pelo que sei é esse o caminho que tem vindo a ser prosseguido.

Para tirar partido do investimento no desenvolvimento dos territórios atravessados, importa que os agentes locais, incluindo autarquias, associações empresariais, centros de conhecimento e potenciais investidores se organizem para formularem e avaliarem a viabilidade de projetos complementares, com o uso da linha para passageiros, a melhoria das ligações a Beja e outros polos de desenvolvimento regional e exploração das potencialidades logísticas que podem ser instaladas junto à fronteira e noutros pontos do trajeto, designadamente em Évora.

Os comboios modernos vão voltar ao Alentejo. Vê-los chegar e partir de Sines é um salto de gigante para a valorização daquela infraestrutura estratégica para a economia nacional e europeia. Mas não devemos deixar o resto do território alentejano apenas a vê-los passar. É este o momento de agir para que isso não aconteça.

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A aceleração do tempo

Mudou o ano num tempo de mudança como foram todos os tempos. O tempo que agora vivemos é no entanto um pouco mais do que um tempo de mudança. A aceleração tecnológica quebrou barreiras de espaço e distância e redefiniu a percepção do tempo. Por isso,mais do que num tempo de mudança, vivemos numa era marcada pela mudança do que significa o tempo e de como ele influencia as nossas vidas.

Há muito tempo que sabemos que o tempo é feito de mudança e que a mudança é o estado normal nos tempos modernos. Mas agora o que está a mudar é a aprópria noção do tempo. Do tempo necessário para fazer uma viagem, responder a um desafio, decidir sobre uma questão, aceder a uma informação. Cada vez mais, corremos atrás do tempo em vez de o fruirmos como uma plataforma para a experiência maravilhosa da vida e dos seus ciclos.

Todas as próteses cognitivas (ou parafernália de recursos tecnológicos) que foram desenvolvidas para nos dar mais capacidade de resposta e portanto mais tempo, acabaram por exigir maiores volumes de resposta e proporcionalmente reduzir o tempo que temos disponível para nós, sem o jugo dos novos critérios de tempo para trabalhar e até para o lazer ou para a interação.

Nem todos fomos arrastados na vertigem do tempo, e mesmo aqueles que pelas suas responsabilidades e funções não lhe podem fugir, estão cada vez mais a procurar estratégias de escape pontual, numa luta difícil contra as poderosas forças de atração para o vórtice da aceleração.

Na última semana do ano muitos de nós, tomados pelo espírito festivo do Natal e da transição do ano, conseguimos desacelerar a correria (ou transferi-la para outras veredas como a visita aos amigos e familiares, a compra de prendas ou a troca de mensagens) e tomar consciência de como a aceleração do tempo está a mudar as nossas vidas, tornando-as mais diversas e eventualmente produtivas, mas nãonecessariamente mais gratificantes e felizes. 

Este texto é produto da minha desaceleração relativa no final do ano. Foi sol de pouca dura mas que inspirou reflexão que agora partilho. Vou acelerar de novopara mais um ano de extraordinários desafios, mas espero conseguir fazê-lo de forma diferente.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” escreveu Camões. Sinto uma enorme urgência em mudar a minha relação com o tempo. E vocêSe aceita um desafio de amigo, pense no tempo e na forma como o vive e se possível use-o em vez de se deixar usar por ele. Eu prometo que vou tentar.



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Democracia - A Palavra de Todos os Anos

Entre muitas outras escolhas, no final de cada ano é também normal escolher-se a palavra do Ano. A escolha mais mediática costuma ser a do Dicionário Oxford que este ano optou por uma palavra composta (Youthquake) que conjuga juventude e mudança acelerada (a tradução à letra seria terramoto jovem, antecipando que as novas gerações vão abanar o mundo).

Sem deixar de dar relevância às escolhas de palavras do ano que se vão fazendo um pouco por todas as latitudes e em Portugal também, tendo em conta o debate e mobilização que a sua escolha sempre suscita, considero que há uma palavra maior, que tem que ser cada vez mais a palavra de todos os anos. Essa palavra é Democracia.

Num tempo de tanta incerteza, e em que a democracia tem sido posta à prova em circunstâncias em que a julgávamos forte e consolidada, como nos Estados Unidos da América e em alguns Estados -membros da União Europeia, designadamente em certas fases do processo catalão e em evoluções perigosas para o Estado de Direito na Hungria e na Polónia, é sempre bom lembrar que a democracia é o único modelo de regulação política das sociedades, que contêm em si mesma as soluções para resolver os problemas que são criados pelo seu mau uso.
    
A Catalunha é aliás um excelente exemplo do que antes referi. Existe hoje um profundo imbróglio democrático na Catalunha porque as regras do bom uso da democracia não foram cumpridas.

Não foram cumpridas em primeiro lugar pelo governo central que se esqueceu durante anos de escutar os anseios do povo catalão. A expressão minimalista da votação no Partido do Governo Central (PP) na Catalunha deu aliás uma resposta democrática clara a esse erro. Não foram cumpridas em segundo lugar por alguns políticos independentistas que convocaram um referendo sem antes cuidarem de conseguir a alteração do quadro constitucional que o impedia. Em consequência,  embora os independentistas tenham a maioria absoluta no novo parlamento catalão, não tiveram a maioria dos votos nas eleições de 21 de Dezembro, exigindo grande cautela na interpretação dos resultados.

O imbróglio catalão, como tantos outros, só pode ser resolvido com uma aplicação plena do bom senso de democrático, para que a vontade maioritária do povo seja respeitada.

É por estas e por outras que para mim, seja qual for a palavra do ano, a democracia é a palavra de todos os anos. É através da sua aplicação plena que se pode melhorar a vida das pessoas e criar mais justiça no mundo. Viva a democracia. Viva 2018.
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Desejar e Fazer (Feliz Natal)

Vivemos mais um Natal. Disse o poeta que o Natal é quando um homem quiser, mas a verdade é que quando o calendário o proclama, o desejo de paz e comunhão amplia-se em cada um de nós.

Desejar é próprio da natureza humana e é um motor do futuro. O futuro que pouco a pouco se transformaráem presente e depois em passado. Por esta altura do ano somos muitas vezes confrontados com perguntas sobre os nossos planos para o ano que chegará ou sobre aquilo que antevemos que nele possa acontecer.

Na sociedade digital, com a aceleração brutal da informação e da ação, antecipar o futuro é um exercício cada vez mais difícil. A forma mais segura de contribuir para que aconteça algo próximo do que desejamos e prevemos é participarmos ativamente como protagonistas, porque o futuro, resultará daquilo que todos e cada um de nós fizermos acontecer.

Saber o que queremos para nós e para o mundo que nos rodeia é o princípio fundamental para podermos contribuir para um futuro melhor e para podermos agir tanto quanto possível em conformidade com as escolhas feitas.

Na noite de Ano Novo, muitos cumprirão a tradição de saborearem doze passas de uva associadas a doze desejos. Algumas serão naturalmente dedicadas aosanseios pessoais e ao que cada um mais quer para os que lhe estão mais próximos. Em relação às outras, permitam-me sugerir algumas intenções para o mundo, para a Europa e para Portugal. São três desejos intemporais, mas particularmente importantes nos dias que correm. 

Num tempo de desordem ordenada nas relações internacionais, desejo que todos saibamos cuidar dos bens supremos da paz e da liberdade. Desejo também que consigamos fazer da União Europeia um espaço de afirmação destes valores e que no nosso País seja possível consolidar o caminho de crescimento com rigor e sensibilidade social que tem vindo a ser percorrido.

São desejos fáceis de proclamar mas muito difíceis de concretizar. Se o fizermos de forma partilhada e solidária teremos mais hipóteses de os ver concretizados. 

Um Feliz Natal para Todos.
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