Barbas de Molho (Um apontamento sobre a Grécia)




 

Por vezes, quanto mais próximo acompanhamos um fenómeno complexo, maior é o ruído e a multiplicidade de sinais a que estamos expostos e mais difícil é compreendê-lo. Antes de escrever este texto foram centenas as pessoas que me perguntaram sobre o que vai acontecer à Grécia enquanto membro da União Europeia e da Zona Euro nas próximas, horas, dias, semanas, meses e anos. A todos respondi que era impossível prever com um mínimo de certeza.

 

Chistine Lagarde, Presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI), acusou os negociadores Gregos de falta de maturidade. Eu, pelo me que tem sido dado ver, acuso todas as partes em conflito de falta de maturidade. Imaturos têm sido os Gregos, mas também os membros das várias instituições europeias que se deixaram engalfinhar num enredo que já dificilmente pode ter um fim feliz. É justa uma exceção relativa para o Parlamento Europeu e para a Comissão Europeia. Juncker e Schulz, e as suas equipas, têm sido dos poucos a mostrar cabeça fria e a dar contributos para uma solução digna.

 

Não vou arriscar aqui, em antecipação, qualquer previsão para o resultado da crise grega. Vou antes focar-me num aspeto estrutural do processo e que me deixou profundamente chocado e indignado. Falo da abusiva interferência dos credores, em particular do FMI, na escolha política interna dum Estado soberano.

 

De forma simplista, que o espaço não permite ir mais longe, o Estado Grego constituiu-se num dever de pagar uma dívida e os credores têm o direito de resistirem a fazer novos empréstimos se não ficar clara a vontade do devedor em honrar os seus compromissos. (Nada seria assim se tivéssemos completado a União Económica e Monetária, mas essas são contas de outro rosário). 

 

O que os credores não podem ter é nenhuma tutela moral sobre um Estado Soberano. Não podem dizer que não querem ser pagos pelos impostos aplicados aos que praticam a evasão fiscal, porque isso asfixia a economia (sic) e querem antes ser pagos por cortes de pensões ou no fornecimento de bens essenciais.

 

 Permitir uma interferência de um organismo técnico na soberania política de um País é um precedente muito perigoso. Quem o defende em Portugal devia começar já a por as barbas de molho. 

 

    

 
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Somos Portugal




 

 

Escrevo esta crónica em Suva, capital das  Fiji, o  local mais longínquo da Terra em que já estive. Aqui o dia começa onze horas antes ( Greenwich – 11)  e  em cada manhã o jornal que me é  entregue diz com orgulho no cabeçalho que é o primeiro jornal a ser publicado no Planeta naquele  dia.

 

O mundo hoje é ao mesmo tempo enorme e minúsculo. Os antípodas são uma miragem e ao mesmo tempo estão ao virar de uma esquina ou de uma mão cheia de aeroportos. No momento em que escrevo é madrugada em Portugal e aqui já cai a tarde.

 

 A Assembleia Parlamentar Europa – África, Caraíbas e Pacífico em que participei em representação do Parlamento Europeu já terminou e daqui a umas horas inicio a segunda parte da minha viagem de circunavegação. O debate que aqui decorreu foi um exemplo claro de um mudo em tempo de viragem. Um mundo que exige de todos e de cada um de nós coragem, espírito aberto e envolvimento.

 

 Temas tão relevantes como a diversidade cultural e os direitos humanos, a formação dos jovens, o financiamento do desenvolvimento e as alterações climáticas estiveram sob análise séria e profunda da Delegação da União Europeia e das 78 delegações nacionais que integram a Assembleia.

 

As Alterações Climáticas estão na ordem do dia. Por elas alguns Países insulares estão em risco de desaparecer. Kiribati e Tuvalu são exemplo. O Presidente do Kiribati fez um discurso de desespero e de inspiração. Uma jovem mãe das Ilhas Marshall pediu um futuro para os seus filhos na terra em que nasceram (As mães portuguesas pedem o mesmo mas no nosso País a solução ainda está nas nossas escolhas). Espero que este clamor pelo combate ao aquecimento global e às suas terríveis consequências, que já chegou ao Vaticano e ao Papa Francisco, chegue também a Paris e à Cimeira do Clima que se realiza no final deste ano.

 

Portugal tornou-se na primeira década deste século um exemplo de transição energética. A aposta nas renováveis foi tão forte que o atual governo não a conseguiu travar. Na eficiência energética infelizmente os programas mais importantes foram travados, como são exemplo o Mobi-e para a Mobilidade Elétrica ou o Eco-AP para a eficiência na Administração Pública. Mas em breve poderemos voltar a escolher o caminho.

 

Para os povos do Pacífico Sul, longínquos somos nós. Longínquos mas aliados. Demos novos mundos ao mundo. Hoje, estou certo, ajudaremos a preservar os mundos em risco. Somos Portugal. Não tememos o Adamastor.

 

 

 

 

 

 
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Alternativas



Escrevi na crónica anterior  sobre as alternativas políticas em Portugal. Neste texto vou reflectir um pouco  sobre as alternativas no mundo. Não é uma tarefa simples. Os factores de complexidade na geopolítica global são brutais e qualquer previsão é pouco mais do que um exercício intuitivo (no meu caso) ou dedutivo para quem é mais dotado para essa forma de pensar.

Nas últimas semanas tenho participado devido às minhas funções no Parlamento Europeu em diversos fóruns de debate global, designadamente na Assembleia Parlamentar Europa – América Latina, no debate no Parlamento Europeu sobre diversas parcerias incluindo a Parceria Transatlântica Europa – Estados Unidos (ainda que o debate em Plenário tenha sido adiado para Julho) e na Assembleia Parlamentar Europa – África, Caraíbas e Pacífico.  

As alianças e as parcerias estão em plena recomposição. Em diversos espaços os resultados eleitorais dão resultados contraditórios. A maioria laica no Parlamento Turco é um dado maior, tal como é significativa a resiliência do Neoliberalismo na Europa, uma das zonas do globo que é absolutamente perdedora, em resultado da desregulação e da predominância das finanças sobre as pessoas.

Olhando com curiosidade mas também com vontade participativa para este quadro múltiplo e tendencialmente reflectido num modelo de dinâmica quântica, encontrar o bater de asas primordial é tarefa difícil.

Porque será que as desigualdades crescentes não conduzem a uma revolta dos povos? Porque será que os pobres ainda com algum dinheiro continuam a comprar as revistas que contam as histórias dos que estão do outro lado do fosso? Será porque sonham que um dia também poderão ser ricos? Será esse o motor que mantém a direita conservadora à tona no meio do naufrágio de tanta gente?

É provável e legítimo que assim seja, mas se assim for então a esquerda progressista tem que encontrar também o seu sonho partilhado. O sonho da felicidade face ao sonho da riqueza absoluta e contrastante com a pobreza da maioria.

Esta nova esquerda global não pode ser uma esquerda agressiva, arrogante, frustrada, destrutiva. Tem antes que desenhar a sua própria narrativa alternativa, baseada num mundo construído a partir de comunidades viáveis, sustentáveis, abertas, tolerantes e justas.

O nosso sonho é sermos  ricos  como os ricos ou felizes como os felizes, sabendo que nem todos podem ser ricos, mas que todos podem aceder à dignidade que lhe abre as portas da felicidade? O nosso sonho é um mundo de desiguais ou um mundo de indivíduos com espaço para se realizarem respeitando planeta e a dignidade dos outros?

Qual é a tua alternativa? Qual é a nossa alternativa? Que mundo tu queres? Que mundo nós queremos? Também destas escolhas maiores dependem os votos que no dia-a-dia expressamos. O sentido da vida … em alternativa.

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Radicalismos



 

A quatro meses das eleições legislativas, a política portuguesa está ao rubro e com uma clara definição das escolhas em jogo.

 

 Ao contrário do que seria normal os portugueses apenas têm uma alternativa no actual quadro de inserção na União Europeia, traduzida no programa testado e exaustivo apresentado pelo PS.

 

 A coligação Passos/Portas decidiu garantir (irrevogavelmente em princípio) que continuará a fazer o mesmo que fez nos últimos quatro anos, enquanto os outros Partidos e movimentos desenham soluções que não têm em conta a realidade de partida nem o caminho para afastar os obstáculos que terão que ser afastados em concertação nacional e internacional para tornar possível mudar as políticas.  

 

Temos assim um programa que não se resigna e que explora todas as fronteiras do Tratado Orçamental e da sua mudança futura para combater o empobrecimento, gerar emprego, reposicionar o País na economia global e devolver a esperança aos portugueses, e dois radicalismos, que do ponto de vista psicológico quase se aproximam da negação.

 

Passos/ Portas negam o efeito devastador no tecido económico e social das suas políticas de austeridade e levam tão longe a cegueira que pretendem amarrar o País por muitos e bons anos a esse teoria económica insensível e improdutiva, inscrevendo na Constituição da República um limite para o deficit, esquecendo que existe uma Lei de Enquadramento Orçamental onde esse limite é ser inscrito com peso reforçado, mas tendo em conta o contexto económico e político de cada ano e de cada ciclo.

 

Bloco, CDU e outras forças que elaboram fora do quadro da inserção de Portugal na Zona Euro, negam por seu lado as dificuldades tremendas da experiência que está a ser vivida pela Grécia e recusam-se a tirar as devidas lições dessa realidade.

 

As condições impostas pelas instituições credoras não podem ser aceites passivamente ou até com gáudio como o faz a Coligação Passos / Portas, mas têm que ser negociadas com firmeza e credibilidade.

 

Foi assim que os socialistas e democratas conseguiram no último ano ganhos na política europeia como a aposta nas energias renováveis, a maior flexibilidade orçamental, o retorno do investimento público como prioridade ou o mecanismo de liquidez que permitiu baixar as taxas de juro para o financiamento dos deficits públicos.

 

Partimos para eleições com três escolhas possíveis. O radicalismo na continuidade de Passos e Portas, a ambição credível do PS ou a aventura ilusória de quem quer sozinho e fechado recriar a história, num quadro de globalização cada vez mais arreigada.

 

Não é por falta de clareza nas opções que nos enganaremos na escolha.

 

  

  
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Outros Tempos (Os 37 anos da AEUE)






 

A Associação de Estudantes da Universidade de Évora (AEUE) fez 37 anos e pelo que me pude aperceber na cerimónia comemorativa dessa efeméride, está forte, pujante e com uma boa dinâmica de dinamização na vida estudantil e na defesa dos interesses dos estudantes da academia eborense.

 

Na cerimónia comemorativa em que participei foram recordados por ex-dirigentes alguns momentos marcantes do seu percurso. Estive profundamente envolvido na constituição e consolidação da AEUE, de cuja direção fui coordenador no mandato 1980/1981. Manifesto a minha satisfação por poder juntar ao orgulho que tenho pela minha Universidade, o orgulho também pelo caminho feito pela Associação que representa os seus estudantes.

 

A história da luta dos então menos de mil alunos da Universidade de Évora para terem a sua Associação livre e autónoma, teve episódios que dariam uma interessante investigação e quem sabe um livro.

 

 Depois disso muitos ciclos foram vividos pela academia. A Autonomia Universitária floresceu e agora está sobre forte pressão provocada pela necessidade de adaptação a circunstâncias em mudança, num quadro de sucessivos cortes no seu financiamento e limitações no uso das receitas próprias.

 

Os diferentes órgãos académicos enfrentam um tempo em que a cooperação é essencial para garantir a viabilização, a modernização e a afirmação da Universidade de Évora no sistema científico e tecnológico e nacional, europeu e global. A dimensão dos desafios externos, tornam-nos aliados naturais nos desafios internos. Não era bem assim no início dos anos 80.

 

Momentos excecionais exigem atitudes à altura do momento. Recordo com saudade mas também com sentido do dever cumprido, a atitude de um punhado de estudantes que em 1980/1981, vindos das mais diversas filiações e simpatias partidárias (CDS, PPD, PPM, PS, UDP, UEC e UDP se a memória não me atraiçoa), sob o lema “meta própria, vontade comum”, deram sequência à conquista de reconhecimento formal conseguida pela direção anterior e juntaram forças para que a AEUE nunca mais pudesse ser posta em causa como tinha sido em anos anteriores pela Reitoria então em funções.

 

Depois disso voltou a normalidade. A saudável disputa das lideranças com programas e candidaturas mais ou menos apoiados pelas juventudes partidárias. A democracia estava consolidada. O 25 de Abril no associativismo universitário em Évora foi há 37 anos. Viva a AEUE.    

 

 
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A Força das Ideias




 

Com as enormes dificuldades com que as pessoas vão vivendo o seu quotidiano, interrogo-me muitas vezes se ainda encontram espaço e disponibilidade mental para o debate filosófico, para o desenho da utopia, para a tentativa de compreender o mundo em toda a sua complexidade como forma estrutural de se capacitarem para o transformar.

 

Nas últimas semanas tive a evidência de que essa disponibilidade existe e talvez esteja, exatamente por causa da crise e da apatia aparente, mais forte que nunca. Basta atear a conversa e descobre-se que aquilo que parecia soterrado pelo dia a dia se reergue com pujança.

 

Foi o que aconteceu no quadro dos Diálogos com a Europa e o Futuro que fui animando um pouco por todo o Continente e pelas Ilhas, ora no quadro das ZTalks – Tertúlias Multimédia e Multitemáticas, ora no quadro do convite que recebi para fazer duas palestras nos 22º Encontros Filosóficos dos Açores, ora no contexto do Ciclo de Conferências e Debates promovido pela Comissão Política Concelhia de Évora do PS.

 

Há muito a melhorar na organização da sociedade e é crescente a exigência cívica para que as políticas públicas aos mais diversos níveis sejam transparentes, competentes e respeitadoras dos valores e dos mandatos recebidos.

 

 Os cidadãos, mais do que promessas, querem poder confiar em quem elegem e encontrar nos desempenhos políticos uma linguagem de verdade e de credibilidade.

 

 Esta exigência tem um reverso que a torna ainda mais positiva. Gera um enorme desafio de despertar de consciências. Quem exige mais dos outros também tem que exigir mais de si próprio. A democracia é representação e depende tanto da qualidade dos representantes quanto do empenho e da vontade dos representados.

 

Recordo aqui a velha bengala argumentativa da mudança de paradigma. Ela é mais necessária do que nunca.

 

 Mas o que é isso da mudança de paradigma? É uma mudança consistente da forma de pensar que induz uma mudança estrutural na forma de fazer. É por isso que as ideias são a força motriz. O princípio e o fim. A raiz da esperança.

 

Gostei de ser por estes dias um semeador de ideias e sobretudo de sentir a terra fresca e fecunda. A força das ideias é a nossa força.

 
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