Indignação (com as eventuais sanções)






Pululam pelos “media” e pelas redes sociais as mais diversas justificações e explicações sobre a sanha persecutória que leva a Comissão Europeia (e o Conselho) a insistirem na aplicação de sanções a Portugal e Espanha por, no que diz respeito a Portugal, ter sido detetado um desvio pontual, irrelevante e justificado, na execução orçamental de 2015 efetuada pelo Governo PSD/PP.

Uma coisa é evidente. Não há racional técnico possível que explique a aplicação de sanções, que a serem aplicadas não contribuiriam em nada para resolver as dificuldades de equilíbrio macroeconómico que o País enfrenta. O simples anúncio reiterado da sua eventualidade, já está a penalizar fortemente a economia nacional.

 Marcelo Rebelo de Sousa, no quadro da sua magistratura patriótica de influência afirmou recentemente “não fazer sentido pensar em sanções da União Europeia a Portugal”, deixando claro que “não há uma mínima lógica” nessas eventuais sanções.

É óbvio que a insistência nas sanções é uma escolha política e não técnica ou jurídica, de uma parte da Comissão Europeia e do Conselho Europeu. A cobertura política que Pedro Passos Coelho tem dado a essa escolha contra Portugal, já se refletiu na sua perda de popularidade e na redução das intenções de voto no seu partido expressas nos estudos de opinião.

 Os portugueses estão legitimamente indignados com o comportamento das instituições europeias em relação a este tema e não lhes faltam razões para isso. Os graves danos causados à nossa economia têm consequências na nossa qualidade de vida, nas oportunidades criar emprego e de atrair investimento e no custo do dinheiro para investir.

 Uma eventual suspensão de fundos estruturais, interromperia e inviabilizaria projetos estruturantes para o futuro e que foram aliás elogiados no seu racional pela Comissão Europeia no quadro da análise do Programa Nacional de Reformas.

O Governo, a Assembleia e o Presidente da República têm vindo a lutar firmemente contra a eventualidade das sanções. As portuguesas e os portugueses têm o direito e o dever de se indignarem com essa possibilidade nas comunidades que integram, nas associações a que pertencem, nos projetos em que estão envolvidos, fazendo ouvir democrática e ordeiramente a sua voz de repúdio junto de quem tem que decidir.

Como membro do Parlamento Europeu, participarei em Setembro num debate (a designação técnica é diálogo estruturado) sobre as eventuais sanções a Portugal. Desejo que seja um debate sério e profundo abrangendo todos os temas em jogo, ou seja a capacidade de Portugal escolher no seio da União Europeia um caminho de desenvolvimento financeiramente rigoroso e socialmente justo. Com crescimento e emprego em vez da austeridade. Com esperança em vez de medo. Com os portugueses e não contra os portugueses.

   
Comentários

Qualifiquem-se Porra (vernáculo alentejano)




Para os menos habituados ao vernáculo alentejano, esclareço que o título deste texto se inspira na pichagem que um grupo de jovens da JS do Baixo Alentejo colocou em maio de 1994 na parede de um pontão inacabado da Barragem do Alqueva. O “Construam-me Porra” ali escrito no inicio da última década do século XX transformou-se num ícone da determinação e da vontade. A barragem construiu-se e é hoje um importante suporte ao desenvolvimento socioeconómico regional. 

Mas há mais a construir na nossa terra. A qualificação das nossas gentes é o mais prioritário. O mundo está a mudar e a economia também. Milhares de empregos tradicionais vão ser perdidos ou deslocalizados. Em simultâneo, milhares de novos empregos vão ser criados pela transição energética e pela revolução digital. O que é que separa uns dos outros? A qualificação necessária, obviamente.

Em Portugal 2 em cada 5 trabalhadores não tem as qualificações adequadas para as funções que desempenha. Em relação às funções que potencialmente vão ser necessário ocupar, o diferencial não está quantificado, mas será muito maior.

No Alentejo, com uma elevada taxa de desemprego entre os jovens, a carência de recursos humanos nos novos domínios dos serviços e tecnologias da informação é enorme. É urgente um esforço conjunto das pessoas e das instituições pela qualificação e pela requalificação, como condição de empregabilidade, de dignidade e de fixação no território de empresas e famílias.

Em 10 de Junho deste ano a Comissão Europeia lançou um programa para responder ao deficit de qualificações e competências profissionais na União Europeia. O programa designado “Uma nova agenda de competência para a União Europeia” engloba dez linhas de ação calendarizadas a concretizar até ao final de 2017, visando “trabalhar em conjunto para reforçar o capital humano, a empregabilidade e a competitividade”.

Este programa assegura a todos os cidadãos europeus uma garantia de competências (avaliação, formação, reconhecimento) na linha do que foi a prática percursora do Programa Novas Oportunidades em Portugal, propõe uma revisão geral dos referenciais de competências, integra uma maior aposta no ensino vocacional, inclui a criação de programas de qualificação para migrantes e refugiados, prevê o desenvolvimento de programas de qualificação especializados para “clusters” empresariais, garante o fornecimento de informação atualizada sobre necessidades de mercado e propõe-se fomentar uma coligação de parceiros para responder ao deficit de competências digitais.

Os instrumentos e os financiamentos estão disponíveis. A necessidade e a oportunidade são óbvias. Por isso, caros leitores, se estão no inicio ou no meio de um percurso profissional, não hesitem. Qualifiquem-se porra!       


Comentários

Obrigado Mister (Portugal Campeão)



Portugal realizou um campeonato europeu de futebol que a todos nos encheu de orgulho. Com realismo e qualidade foi ultrapassando obstáculos e chegou ao palco grandioso da final e tornou-se campeão europeu de futebol.

Uma caminhada destas, num contexto em que o futebol é hoje um espetáculo e um negócio global, exige uma grande congregação de esforços. Ninguém sozinho, nem mesmo um jogador da estirpe e da classe de Cristiano Ronaldo, pode atingir tal feito.

 É por isso sempre um exercício arriscado e com um grau de injustiça, não atribuir a um coletivo alargado o mérito pelo resultado atingido. Um resultado que emergiu da inspiração dos jogadores e dirigentes mas também da comunhão de apoios que despontaram um pouco por todo um planeta, em cada recanto onde vivia ou estava um português ou um amigo de Portugal.

Com as ressalvas feitas anteriormente, sinto um impulso para partilhar neste texto um agradecimento especial a Fernando Santos. Quando antes do campeonato referiu que só regressaria a casa a 11 de Julho poucos o levaram a sério. Se o sortilégio do jogo o tivesse feito regressar mais alvo de um coro de críticas. Como cumpriu o que prometeu, merece por inteiro um obrigado forte e sincero.

Como já escrevi algumas vezes neste espaço, o Futebol (e no desporto em geral) tem que ser vivido com razão e com emoção. Viver emocionalmente o jogo faz de cada um de nós treinadores de bancada. Não prescindi neste campeonato de o ser e algumas vezes discordei das escolhas iniciais ou das substituições do Mister. Os resultados no entanto não enganam. Fernando Santos tirou o melhor da equipa que tinha.

Para a posteridade fica uma ideia que me tem feito pensar muito. Para Fernando Santos o Futebol Profissional já não é um jogo da bola, artístico, rendilhado, coreografado. É antes um jogo de estratégia em que ganha o mais astuto e não quem melhor parece jogar.

Esta constatação do Mister, demonstrada no campo, apela a uma nova atitude do adepto. Temos hoje que ver o jogo não como um bailado mas como um jogo de xadrez. Conter as emoções e explodir com o xeque-mate.

Como é público e notório sou um adepto emocional e quase incondicional do Sporting. O meu Sporting foi a equipa que melhor jogou à bola no campeonato passado. No entanto para história ficou a vitória do Benfica. A atitude foi mais forte que a classe.

Obrigado Mister. O Futebol é um jogo lindo. Quando se junta capacidade jogar à bola e estratégia vencedora atinge-se o auge. Portugal venceu. A vitória perdurará por muitas décadas na nossa memória.            






Comentários

Viagem no Tempo (Sobre a Feira de S.João de Évora)




 

Chegou ao fim mais uma corrida mais uma viagem, ou seja, mais uma feira anual em Évora. Para o ano haverá mais uma Feira de S. João no Rossio e de novo lá estaremos a percorrer os mesmos percursos e espaços, que com ligeiras alterações se vão mantendo há décadas com a mesma traça, sons, cheiros, luzes, alma.

 

 Os pavilhões económicos, as barraquinhas das associações e do artesanato, a zona das farturas e dos churros com o cheiro seu marcante, as roulottes de comes e bebes, a sempre animada Horta das Laranjeiras com as múltiplas tasquinhas, os palcos e a Feira do Livro, os Pavilhões Institucionais, os restaurantes de feira com a carne sempre no assador, as noites entrecortadas de bafo alentejano e de vento cortante nos dias mais frios.

 

As feiras anuais que se realizam um pouco por todo o País, e de que a Feira de S. João é um exemplo, ainda com a traça de feira de trocas e de mostras, são hoje um ponto de encontro especial entre gentes que ficam e gentes que partem e regressam naqueles dias às suas comunidades de origem.

 

 Alguns amigos de liceu, da universidade, do futebol, das corridas e das aventuras ciclísticas, dos bailes e das festas da minha juventude, quase só os encontro, quando encontro, na feira de S. João. É sempre um encontro reconfortante.

 

 Embora muito tenha mudado em nós com a passagem do tempo, deixando marcas nos rostos, nas histórias por contar, nas famílias acrescentadas pelos que foram nascendo ou diminuídas pelos que partiram, a permanência do cenário, dá a sensação estranha de uma viagem no tempo, como se cada amigo ou amiga que encontramos nos convidasse a uma paragem breve numa estação da nossa existência e num recanto das nossas memórias.

 

Há muitos anos, (e este ano pelo que percebi, também assim aconteceu), que se discute o futuro da Feira de S. João e a necessidade de a aproximar das feiras económicas mais modernas, com pavilhões aclimatados e grandes espetáculos para atrair multidões.

 

 É claro que pavilhões confortáveis e espetáculos interessantes só farão bem à Feira de S. João e as novas gerações esperam e têm legítimo direito a outras ofertas mais adaptadas aos tempos que correm.

 

Mas para mim, que normalmente não dispenso a nostalgia de umas voltas no carrossel ou na pista dos carros de choque e uns petiscos nas tasquinhas (este ano animadas pelos écrans do nosso contentamento desportivo) é sobretudo a viagem no tempo que constitui o passear pela feira, bebericando aqui e ali uma imperial ou uma caipirinha, um branco fresquinho ou um tinto arrebatado e encontrando as pessoas que comigo têm feito a caminhada da vida, que faz da Feira de S. João de Évora um evento único.

 

 Uma prova de vida, em cada ano saboreada como se fosse a primeira vez.  

 

 

 

 

 
Comentários

Razão Global (A Globalização e o Brexit)




Muito tem sido escrito sobre o referendo no Reino Unido que visou decidir a sua permanência na União Europeia.

 

 Muito se escreveu antes, muito se escreveu depois e muito se vai continuar a escrever, porque o tema é de enorme complexidade e nele convergem todos os temas chave sobre o futuro da Europa e do mundo. 

 

Olhando com algum detalhe para a segmentação do voto, percebemos que a escolha de sair da União Europeia foi tomada pelos mais pobres, pelos mais velhos e pelos menos qualificados. Em contrapartida os mais inseridos profissionalmente, os mais jovens e os melhores posicionados em termos de rendimentos votaram maioritariamente por ficar na União.

 

Estes factos levam-me a considerar, reconhecendo tratar-se de uma simplificação, que além de tudo o mais, foi a globalização desregulada que foi julgada no Reino Unido e foi ela a causa e a justificação final do resultado verificado, com a agravante de, em minha opinião, a resposta dos deserdados dessa globalização, ter sido contrária aos interesses que queriam defender.

 

A globalização criou, sobretudo na Europa, um mundo fragmentado entre cidadãos que sobrevivem e prosperam nesse mundo global, trabalhando em setores e negócios sem fronteiras, dispondo de competências linguísticas e digitais que lhe permitem criar valor onde surgem as oportunidades, e cidadãos que tendo competências tradicionais e desajustadas, se vêm sujeitos à pressão da concorrência direta por migrantes mais bem qualificados ou menos onerosos para quem contrata e pela deslocalização de muitos serviços e indústrias para zonas emergentes do planeta, onde as condições sociais e ambientais são menos respeitadas.

 

Esta situação é profundamente injusta e frustrante, quer para os excluídos da globalização desregulada, quer pelos que são explorados por ela. O desafio, como já aqui escrevi muitas vezes, é tentar regular a globalização, torná-la mais focada nas pessoas e na sustentabilidade do planeta, aplicar os Acordos de Paris e dar corpo à visão inspiradora do Papa Francisco e de outros líderes políticos e religiosos que pugnam por uma sociedade aos serviço do Homem e não ao serviço dos interesses egoístas e da especulação financeira global.

 

Muitos dos que votaram pela saída do Reino Unido da UE votaram contra a globalização sem rosto humano e sem regras justas. Respeito o seu voto, mas erraram o alvo. É que se há esperança em mudar essas regras, ela parte em larga medida da visão mais humanista e sustentável do projeto europeu, quando comparado com a realidade de outros espaços e modelos económicos.       

 

Enfraquecer o projeto europeu é dar um passo atrás na regulação da globalização. Um passo atrás naquilo em que muitos no Reino Unido e na União Europeia desejam dar um passo em frente. É dentro da UE que temos que lutar por um mundo melhor. Não é por acaso que os interesses mais obscuros do mundo mostram tanto empenho em minar o projeto europeu.

 

A razão global tem que ser explicada de forma simples aos povos europeus e aos povos do mundo. Para que possam fazer escolhas livres e conscientes. Para que não decidam contra si, quando desejam profundamente decidir a seu favor.
Comentários

Àfrica "Minha"




Vivi parte significativa da minha infância e início de adolescência em África (Moçambique e Angola). Quem viveu em África nunca mais deixa de ter consigo a marca da vastidão, das cores, dos cheiros e dos sons duma terra abençoada.

 

Nas minhas Funções Parlamentares voltei entre 10 e 15 de Junho a África, mais propriamente à Namíbia, para participar em Windhoek na 31ª Assembleia Parlamentar entre a União Europeia e os Países ACP (África, Caraíbas e Pacífico). A vida profissional e política tem-me permitido voltar a África com alguma regularidade. Em boa verdade, às diversas “áfricas”, com caraterísticas regionais bem diferenciadas, que constituem o grande continente africano.

 

 O mosaico africano é hoje uma terra paradoxal. O continente do futuro segundo muitos, mas ao mesmo tempo um continente amarrado pela ganância global pela exploração dos seus recursos e pelas fragilidades locais na defesa desses recursos.

 

Os debates principais ocorridos na Assembleia de Windhoek refletiram bem os principais paradoxos que afligem hoje o continente. As migrações forçadas pela guerra ou pelas mudanças climáticas. A tendência para a perpetuação dos altos dirigentes no poder, alterando em muitos casos os limites constitucionais dos mandatos. A fragilidade das sociedades civis que impede uma governação mais participativa. A falta de qualificação da maioria da população e a extrema desigualdade entre os ricos e os pobres no acesso aos bens necessários a uma vida digna. A dependência extrema das economias em relação à exportação de matérias-primas num processo controlado por empresas multinacionais.

 

No contexto da participação nos trabalhos da Assembleia, pude realizar duas visitas a projetos apoiados pela União Europeia, cujo contraste ilustra bem a realidade paradoxal que referi antes, mesmo sendo a Namíbia um dos países com melhores indicadores de desenvolvimento em todo o Continente.

 

Na Universidade de Ciências e Tecnologias da Namíbia assisti ao despontar de interessantes projetos de adaptação das energias renováveis à realidade africana, que podem permitir levar energia a populações dispersas e melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas. Na clinica de Okuryangava verifiquei como 3 médicos com recursos mínimos procuravam responder à má nutrição infantil que atinge um quarto das crianças e ao desespero de milhares de mães sem recursos para alimentar os seus filhos, com a agravante de muitas delas portadoras do Vírus da Sida.

 

Quer na Universidade quer na Clínica, no meio da esperança ou da adversidade, encontrei sempre olhares profundos e densos, projetados na lonjura e agarrados ao momento. Olhares paradoxais, mas cheios de luz. África “Minha”.

        

 

       
Comentários
Ver artigos anteriores...