Ebulição
2010/08/29 21:32
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A nova liderança do PSD iniciou o seu mandato de forma auspiciosa, com sentido de Estado e evidenciando um discernimento claro entre as linhas de fractura e alternativa que caracterizam o combate político democrático e as zonas de convergência exigidas pelo interesse nacional.
Essa atitude deu rapidamente frutos nos estudos de opinião e o PSD passou para a frente nas sondagens. Não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão e deve reconhecer-se que o novo PSD conseguiu com mérito evidente causar essa boa impressão positiva com reflexo nas escolhas e nas simpatias imediatas do eleitorado.
Deu-se então um brutal e inesperado fenómeno de ebulição interna. A tentação do poder insuflada pelas boas projecções, inundou o Partido como um tsunami de volúpia, lançou a confusão nas hostes, provocou múltiplas falsas partidas e fez reverter de tal forma a situação política que hoje são de novo o PS e o seu governo os referenciais de estabilidade para enfrentar a crise.
Nesta fervura destemperada o PSD perdeu mesmo a marca do arranque e do sentido de Estado nele revelado. Hoje a percepção da maioria dos portugueses com que falo (não obviamente dos militantes do PSD, mas das pessoas sem filiação cujas escolhas variáveis decidem as eleições) é que o PSD é um Partido que não concorda com a justa causa como condição para o despedimento mas apenas tem uma vaga ideia alternativa sobre o tema, tal como tem ideias vagas sobre como garantir alguma segurança no acesso à saúde depois de destruir o Sistema Nacional de Saúde e de garantir o acesso de todos à educação depois de fazer implodir a Escola Pública.
Não é fácil definir a fronteira entre ebulição e coragem política quando uma liderança opta por colocar em debate na sociedade portuguesa temas tão cruciais como as relações laborais, o modelo de acesso à saúde e o modelo de democratização do ensino. O que me faz considerar que neste caso houve mais ebulição do que coragem é a ausência de contornos claros nas propostas de mudança.
As coisas tal como se apresentam aos nossos olhos, dão toda a ideia de não terem sido maturadas, pensadas nem reflectidas. Ora se é verdade que não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão numa liderança, o mesmo se aplica às ideias e às propostas políticas.
Chegamos pois a um novo e determinante ano político com o maior Partido da oposição credibilizado por uma boa atitude de convergência na aprovação do Pacto de Estabilidade e Crescimento e ao mesmo tempo amarrado a três linhas de pensamento atabalhoadamente alinhavadas e lançadas para o centro do debate político.
Com estes dados, os estudos de opinião vão fazer baixar a fervura e a ebulição. Veremos depois o que fica quando a água baixar. O comportamento do PSD no debate do Orçamento Geral do Estado para 2011 será um sinal inequívoco de qual impressão é para valer. Se a impressão de responsabilidade do arranque ou se a impressão de desnorte dos passos que se seguiram. As oportunidades não são eternas.
Essa atitude deu rapidamente frutos nos estudos de opinião e o PSD passou para a frente nas sondagens. Não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão e deve reconhecer-se que o novo PSD conseguiu com mérito evidente causar essa boa impressão positiva com reflexo nas escolhas e nas simpatias imediatas do eleitorado.
Deu-se então um brutal e inesperado fenómeno de ebulição interna. A tentação do poder insuflada pelas boas projecções, inundou o Partido como um tsunami de volúpia, lançou a confusão nas hostes, provocou múltiplas falsas partidas e fez reverter de tal forma a situação política que hoje são de novo o PS e o seu governo os referenciais de estabilidade para enfrentar a crise.
Nesta fervura destemperada o PSD perdeu mesmo a marca do arranque e do sentido de Estado nele revelado. Hoje a percepção da maioria dos portugueses com que falo (não obviamente dos militantes do PSD, mas das pessoas sem filiação cujas escolhas variáveis decidem as eleições) é que o PSD é um Partido que não concorda com a justa causa como condição para o despedimento mas apenas tem uma vaga ideia alternativa sobre o tema, tal como tem ideias vagas sobre como garantir alguma segurança no acesso à saúde depois de destruir o Sistema Nacional de Saúde e de garantir o acesso de todos à educação depois de fazer implodir a Escola Pública.
Não é fácil definir a fronteira entre ebulição e coragem política quando uma liderança opta por colocar em debate na sociedade portuguesa temas tão cruciais como as relações laborais, o modelo de acesso à saúde e o modelo de democratização do ensino. O que me faz considerar que neste caso houve mais ebulição do que coragem é a ausência de contornos claros nas propostas de mudança.
As coisas tal como se apresentam aos nossos olhos, dão toda a ideia de não terem sido maturadas, pensadas nem reflectidas. Ora se é verdade que não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão numa liderança, o mesmo se aplica às ideias e às propostas políticas.
Chegamos pois a um novo e determinante ano político com o maior Partido da oposição credibilizado por uma boa atitude de convergência na aprovação do Pacto de Estabilidade e Crescimento e ao mesmo tempo amarrado a três linhas de pensamento atabalhoadamente alinhavadas e lançadas para o centro do debate político.
Com estes dados, os estudos de opinião vão fazer baixar a fervura e a ebulição. Veremos depois o que fica quando a água baixar. O comportamento do PSD no debate do Orçamento Geral do Estado para 2011 será um sinal inequívoco de qual impressão é para valer. Se a impressão de responsabilidade do arranque ou se a impressão de desnorte dos passos que se seguiram. As oportunidades não são eternas.
Comentários
"O Princípio de Queiroz"
2010/08/20 17:22
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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O famoso “Princípio de Peter” ensina-nos que nas hierarquias tradicionais, baseadas no mérito, as pessoas vão ascendendo em função do seu bom desempenho até estagnarem num ponto em que o desempenho já não justifica a sua ascensão. Claro que este é um princípio teórico, que raramente se aplica em estado puro no mundo real (onde há muitas outras dinâmicas para além do mérito). Ainda bem que assim é como veremos seguidamente.
Levada às últimas consequências, a dinâmica do mérito de desempenho actuando em hierarquias formais faz com que um sistema em equilíbrio não seja um sistema em que todos os elementos estão no seu ponto máximo de competência, mas antes seja um sistema em que todos os elementos atingiram o seu ponto de incompetência.
A constatação deste facto é uma das razões pelas quais nas economias e nas empresas mais dinâmicas se foi perdendo o conceito de carreira, e nas instituições que têm que ser fortemente hierárquicas pela sua natureza, se introduzam cada vez mais factores de adequação às novas funções nos processos de recrutamento, em prejuízo do mérito acumulado em funções anteriores.
E a que propósito abordo eu nesta crónica estes princípios básicos de gestão das organizações e dos seus recursos humanos?
Pelo título os leitores já perceberam onde eu quero chegar. É que cada um é para o que nasce. Carlos Queiroz deve ser um dos melhores treinadores de jovens do mundo. Mostrou nas selecções jovens em Portugal e como adjunto no Manchester United uma capacidade extraordinária de identificar, mentalizar e projectar grandes jogadores para o futebol mundial. A sua produtividade como gerador de talentos é enorme e deve ser reiteradamente reconhecida.
Mas estes factos indiscutíveis garantem que o Professor tem as competências adequadas para lidar com a pressão da liderança em situações de “stress” como são aquelas a que naturalmente são sujeitos os treinadores principais das grandes equipas mundiais de selecção ou de clube? Os factos mostram que não. Exemplos como os do Sporting e do Real Madrid ou das selecções de Portugal e da África do Sul comprovam esta realidade.
O braço de ferro entre a grande maioria dos adeptos do desporto rei em Portugal e o treinador da nossa selecção principal de futebol é um conflito que se não for resolvido com cuidado, poderá continuar a fazer com todos percam prestígio e oportunidades, como aconteceu na desconsolada participação no Mundial 2010.
Queiroz é um excelente treinador e Portugal tem potencial para formar uma excelente selecção de futebol. Mas com a selecção portuguesa Queiroz não atinge a excelência e o contrário é igualmente verdadeiro.
De quem é a culpa? Não é de ninguém … ou antes, é do “Princípio de Queiroz” … um treinador que faz tudo bem excepto quando quer fazer (e o contratam para fazer) coisas que não tem perfil para realizar com o mesmo nível de desempenho que atinge na nobre missão de preparar grandes jogadores para o futebol mundial.
Levada às últimas consequências, a dinâmica do mérito de desempenho actuando em hierarquias formais faz com que um sistema em equilíbrio não seja um sistema em que todos os elementos estão no seu ponto máximo de competência, mas antes seja um sistema em que todos os elementos atingiram o seu ponto de incompetência.
A constatação deste facto é uma das razões pelas quais nas economias e nas empresas mais dinâmicas se foi perdendo o conceito de carreira, e nas instituições que têm que ser fortemente hierárquicas pela sua natureza, se introduzam cada vez mais factores de adequação às novas funções nos processos de recrutamento, em prejuízo do mérito acumulado em funções anteriores.
E a que propósito abordo eu nesta crónica estes princípios básicos de gestão das organizações e dos seus recursos humanos?
Pelo título os leitores já perceberam onde eu quero chegar. É que cada um é para o que nasce. Carlos Queiroz deve ser um dos melhores treinadores de jovens do mundo. Mostrou nas selecções jovens em Portugal e como adjunto no Manchester United uma capacidade extraordinária de identificar, mentalizar e projectar grandes jogadores para o futebol mundial. A sua produtividade como gerador de talentos é enorme e deve ser reiteradamente reconhecida.
Mas estes factos indiscutíveis garantem que o Professor tem as competências adequadas para lidar com a pressão da liderança em situações de “stress” como são aquelas a que naturalmente são sujeitos os treinadores principais das grandes equipas mundiais de selecção ou de clube? Os factos mostram que não. Exemplos como os do Sporting e do Real Madrid ou das selecções de Portugal e da África do Sul comprovam esta realidade.
O braço de ferro entre a grande maioria dos adeptos do desporto rei em Portugal e o treinador da nossa selecção principal de futebol é um conflito que se não for resolvido com cuidado, poderá continuar a fazer com todos percam prestígio e oportunidades, como aconteceu na desconsolada participação no Mundial 2010.
Queiroz é um excelente treinador e Portugal tem potencial para formar uma excelente selecção de futebol. Mas com a selecção portuguesa Queiroz não atinge a excelência e o contrário é igualmente verdadeiro.
De quem é a culpa? Não é de ninguém … ou antes, é do “Princípio de Queiroz” … um treinador que faz tudo bem excepto quando quer fazer (e o contratam para fazer) coisas que não tem perfil para realizar com o mesmo nível de desempenho que atinge na nobre missão de preparar grandes jogadores para o futebol mundial.
Tesouro sem Mapa
2010/08/16 11:22
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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Quando há cerca de dois anos publiquei o “Visto do Alentejo” nº 777 arrisquei um percurso pela simbologia dos números e relembrei as etapas de vida que tinham marcado anteriormente outras crónicas capicuas como a 111, a 222, a 333, a 444, a 555 e a 666. Antecipei também um desejo. Sendo o 8 associado à riqueza, esperava que a crónica 888 (esta) fosse escrita num contexto de crescimento e desenvolvimento sustentável de Portugal, da Europa e do Mundo.
Embora a economia portuguesa e a economia mundial estejam a crescer e Portugal seja um exemplo mundialmente reconhecido de sustentabilidade através da aposta nas energias renováveis, não eram os actuais indicadores de crescimento e emprego que me serviram de referência para formular o meu desejo. A realidade está muito longe da legítima ambição dum mundo melhor, mais justo e com mais oportunidades.
Estes dois anos foram anos de chumbo, estranhos, caóticos, com sucessivas derrocadas e reconstruções na economia mundial, mas em que a sombra do padrão neoliberal nunca deixou de estar presente e de ameaçar ser o mapa do tesouro de todos os recomeços.
Sendo um optimista e acreditando que só a acção transformadora em nome do bem comum dá sentido à participação cívica e à acção política, não me resigno a aceitar que depois de tudo o que vivemos e sofremos nos últimos anos, estejamos condenados a alinhar a economia de acordo com os mesmos mapas que conduziram a economia mundial à estagnação e ao desemprego acrescido.
Objectivamente, na escala dos mapas do futuro, em particular no quadro dos espaços de integração económica como é o caso da UE e em especial da zona Euro, não é possível a um País “fugir” sozinho do padrão globalmente definido. Pode e deve participar no desenho, mas não pode sair da rota sem assumir a quebra com o colectivo que integra.
É por isso, antes de mais, no plano supranacional e até mesmo supra institucional que o combate ideológico tem que ser travado, tendo presente que num quadro de complexidade e de globalização, o tesouro da sustentabilidade e do desenvolvimento harmonioso não poderá um simples mapa alternativo à cartilha neoliberal.
Nem deve aliás ser um mapa, mas antes um tesouro definido de forma diferente e que se poderá aceder a partir duma diversidade de abordagens complementares.
Opor à dogmática dos mercados, uma outra qualquer dogmática de raiz ideológica, por muito bem-intencionada que seja, pode conduzir-nos a uma situação já vivida no passado, em que pouco ou nada se ganhando na economia, tudo se arrisca na liberdade.
No quadro da nova sociedade global e em rede, o crescimento para ser sustentável e consistente, não dispensando as visões agregadoras como referência, tem ser alicerçado nas vontades das comunidades e das pessoas, traduzidas em escolhas democráticas que expressem uma ética de justiça social e se concretizem no quotidiano reflectindo os valores centrais da liberdade e da equidade.
O futuro é um tesouro sem mapa porque é um tesouro que se esconde, descobre e revela em cada um de nós e na nossa capacidade de agir, lutar, acreditar, transformar, cooperar e induzir a dinâmica de mudança que comanda a vida.
Embora a economia portuguesa e a economia mundial estejam a crescer e Portugal seja um exemplo mundialmente reconhecido de sustentabilidade através da aposta nas energias renováveis, não eram os actuais indicadores de crescimento e emprego que me serviram de referência para formular o meu desejo. A realidade está muito longe da legítima ambição dum mundo melhor, mais justo e com mais oportunidades.
Estes dois anos foram anos de chumbo, estranhos, caóticos, com sucessivas derrocadas e reconstruções na economia mundial, mas em que a sombra do padrão neoliberal nunca deixou de estar presente e de ameaçar ser o mapa do tesouro de todos os recomeços.
Sendo um optimista e acreditando que só a acção transformadora em nome do bem comum dá sentido à participação cívica e à acção política, não me resigno a aceitar que depois de tudo o que vivemos e sofremos nos últimos anos, estejamos condenados a alinhar a economia de acordo com os mesmos mapas que conduziram a economia mundial à estagnação e ao desemprego acrescido.
Objectivamente, na escala dos mapas do futuro, em particular no quadro dos espaços de integração económica como é o caso da UE e em especial da zona Euro, não é possível a um País “fugir” sozinho do padrão globalmente definido. Pode e deve participar no desenho, mas não pode sair da rota sem assumir a quebra com o colectivo que integra.
É por isso, antes de mais, no plano supranacional e até mesmo supra institucional que o combate ideológico tem que ser travado, tendo presente que num quadro de complexidade e de globalização, o tesouro da sustentabilidade e do desenvolvimento harmonioso não poderá um simples mapa alternativo à cartilha neoliberal.
Nem deve aliás ser um mapa, mas antes um tesouro definido de forma diferente e que se poderá aceder a partir duma diversidade de abordagens complementares.
Opor à dogmática dos mercados, uma outra qualquer dogmática de raiz ideológica, por muito bem-intencionada que seja, pode conduzir-nos a uma situação já vivida no passado, em que pouco ou nada se ganhando na economia, tudo se arrisca na liberdade.
No quadro da nova sociedade global e em rede, o crescimento para ser sustentável e consistente, não dispensando as visões agregadoras como referência, tem ser alicerçado nas vontades das comunidades e das pessoas, traduzidas em escolhas democráticas que expressem uma ética de justiça social e se concretizem no quotidiano reflectindo os valores centrais da liberdade e da equidade.
O futuro é um tesouro sem mapa porque é um tesouro que se esconde, descobre e revela em cada um de nós e na nossa capacidade de agir, lutar, acreditar, transformar, cooperar e induzir a dinâmica de mudança que comanda a vida.
Félix Total
2010/08/11 12:24
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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O Jornal Público de 5 de Agosto publicou no suplemento P2 uma excelente entrevista de Teresa de Sousa a Félix Ribeiro, Subdirector Geral de Prospectiva e Planeamento e um dos mais brilhantes pensadores sobre a cenarização estratégica do futuro do mundo em geral e de Portugal em particular.
Já aqui escrevi sobre a forma como a teoria dos cenários é enfraquecida pela complexidade do mundo global. Os cenários não deixam por isso de ser importantes, embora tenham que assumir cada vez mais um carácter plástico e adaptativo face à aceleração das mudanças contextuais.
Na entrevista, em que Félix Ribeiro responde com sabedoria e lógica desarmante às informadas questões duma das mais prestigiadas jornalistas portuguesas de política internacional, o economista desenha para Portugal 4 modelos de crescimento ou de resposta à irrelevância com que a aceitação dum posicionamento periférico nos ameaça.
O primeiro cenário designado por “Florida” posiciona Portugal como um centro global de fixação de talentos, desenvolvendo áreas de excelência capazes de atrair os melhores nas áreas de aposta para um País afável, seguro, cosmopolita e conectado.
O segundo cenário, a que Félix Ribeiro chamou “Escócia” coloca-nos como uma plataforma de energia nas suas diversas formas e tecnologias, explorando fileiras desde a produção à engenharia e aos novos produtos associados.
O terceiro cenário, de “Plataforma Asiática” recupera tempos idos fazendo da nossa plataforma continental uma placa giratória de bens e serviços de e para a Ásia no quadro da concretização rápida das novas acessibilidades globais de que o TGV e Aeroporto de Alcochete são os exemplos mais emblemáticos.
Finalmente, o quarto cenário, chamado de “Ponte Atlântica” coloca Portugal como país charneira no quadro da rede dos países da CPLP e das suas ligações a outras plataformas, desenvolvendo em particular a triangulação com Angola e com o Brasil.
Olhando para estas perspectivas posso ver como elas já inspiram muitos dos movimentos estratégicos recentes da nossa economia e sinto que os diversos cenários mais do que alternativos são complementares e em conjunto traduzem uma visão forte e estimulante - A visão “Félix Total”, designação que atribuo a esta perspectiva pessoal “não autorizada” pelo Dr. Félix Ribeiro, mas que sei que uma vez do seu conhecimento, ele debaterá com a paixão e desprendimento de preconceitos que o caracterizam.
O modelo “Félix Total” pressupõe aliás uma outra linha que defendo há muito e que Félix Ribeiro também aflora na sua entrevista. Uma ideia que passa pelo desenvolvimento duma rede de países plataforma que não sendo parte de nenhum bloco económico em exclusivo, facilitam e exploram os “interfaces” entre eles.
Portugal tem condições para incluir este clube restrito de países da meta globalização. Condições que exigem acção e não inércia, continuidade e não corte, coragem e não tibieza. Os cenários de futuro, bons ou maus, são em última análise nós que os fazemos acontecer.
Já aqui escrevi sobre a forma como a teoria dos cenários é enfraquecida pela complexidade do mundo global. Os cenários não deixam por isso de ser importantes, embora tenham que assumir cada vez mais um carácter plástico e adaptativo face à aceleração das mudanças contextuais.
Na entrevista, em que Félix Ribeiro responde com sabedoria e lógica desarmante às informadas questões duma das mais prestigiadas jornalistas portuguesas de política internacional, o economista desenha para Portugal 4 modelos de crescimento ou de resposta à irrelevância com que a aceitação dum posicionamento periférico nos ameaça.
O primeiro cenário designado por “Florida” posiciona Portugal como um centro global de fixação de talentos, desenvolvendo áreas de excelência capazes de atrair os melhores nas áreas de aposta para um País afável, seguro, cosmopolita e conectado.
O segundo cenário, a que Félix Ribeiro chamou “Escócia” coloca-nos como uma plataforma de energia nas suas diversas formas e tecnologias, explorando fileiras desde a produção à engenharia e aos novos produtos associados.
O terceiro cenário, de “Plataforma Asiática” recupera tempos idos fazendo da nossa plataforma continental uma placa giratória de bens e serviços de e para a Ásia no quadro da concretização rápida das novas acessibilidades globais de que o TGV e Aeroporto de Alcochete são os exemplos mais emblemáticos.
Finalmente, o quarto cenário, chamado de “Ponte Atlântica” coloca Portugal como país charneira no quadro da rede dos países da CPLP e das suas ligações a outras plataformas, desenvolvendo em particular a triangulação com Angola e com o Brasil.
Olhando para estas perspectivas posso ver como elas já inspiram muitos dos movimentos estratégicos recentes da nossa economia e sinto que os diversos cenários mais do que alternativos são complementares e em conjunto traduzem uma visão forte e estimulante - A visão “Félix Total”, designação que atribuo a esta perspectiva pessoal “não autorizada” pelo Dr. Félix Ribeiro, mas que sei que uma vez do seu conhecimento, ele debaterá com a paixão e desprendimento de preconceitos que o caracterizam.
O modelo “Félix Total” pressupõe aliás uma outra linha que defendo há muito e que Félix Ribeiro também aflora na sua entrevista. Uma ideia que passa pelo desenvolvimento duma rede de países plataforma que não sendo parte de nenhum bloco económico em exclusivo, facilitam e exploram os “interfaces” entre eles.
Portugal tem condições para incluir este clube restrito de países da meta globalização. Condições que exigem acção e não inércia, continuidade e não corte, coragem e não tibieza. Os cenários de futuro, bons ou maus, são em última análise nós que os fazemos acontecer.
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Évora (1165 / 2020)
2010/08/07 15:38
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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A forma como titulo esta crónica pode induzir em erro! Não prevejo que nada de especial ocorra em Évora em 2020 e muito menos que se venha a verificar nessa data qualquer hecatombe que pronuncie o fim do ciclo histórico iniciado com a sua integração no reino de Portugal em 1165. A referência do ano 2020 é uma analogia com a fronteira do futuro estabelecida para as estratégias europeias e globais.
A história de Évora é muito anterior a 1165, ano em que Geraldo Sem Pavor a conquistou aos muçulmanos e a entregou à guarda de D. Afonso Henriques, rei dos portugueses, dando assim um passo importante na afirmação da nossa nacionalidade, proclamada em Zamora em 1143, mas só confirmada em 1179 pela bula papal de Alexandre III.
A importância estratégica de Évora para a consolidação do Reino de Portugal ficou evidente com a atribuição dum foral que a libertava dos jugos senhoriais logo no ano seguinte à sua reconquista, ou seja, em 1166. Essa carta de alforria foi usada com tal maestria política que quando em 1184 uma ofensiva muçulmana fez recuar as linhas de fronteira do reino até às margens do Tejo, Évora resistiu como uma bandeira de portugalidade e manteve-se até aos nossos dias como um dos palcos principais onde se forjou a identidade nacional. A história de Évora e do Alentejo, antes e depois de 1165 são duma extraordinária riqueza.
Cidade cujo centro histórico é património da humanidade, urbe milenar de saber e de poder, Évora e todo o território que a envolve serão de novo marcantes na história das primeiras décadas do novo século e do novo milénio. A oportunidade existe e até 2020 vai ser consolidada como uma realidade evidente e irreversível. Com mais ou menos crise e com maiores ou menores dificuldades, há coisas que estão a ser feitas e bem pela autarquia, pelo governo e pela sociedade civil, que não poderão deixar de ser continuadas e consolidadas no futuro próximo.
A centralidade logística decorrente do entreposto ferroviário que nascerá junto a Évora, o novo cluster aeronáutico, os centros de serviços de alto valor acrescentado atraídos pela centralidade geográfica e pelos centros de saber de que se destaca o prestígio da secular Universidade de Évora, a qualidade de um novo hospital de nova geração, a construção dum novo parque de ciência e tecnologia com os requisitos mais avançados, o nível superior da oferta turística regional já existente e em construção, a proximidade aos novos aeroportos de Alcochete e Beja e a qualidade do aeródromo municipal são apenas alguns dos pilares que me dão a certeza de que esta cidade e esta região vão continuar a marcar a história de Portugal no futuro próximo.
Não farão aliás no futuro nada de muito diferente do que fizeram sempre no passado. Para uma visão mais global da nossa história e tentar ligar algumas pontas, levei para férias a recentemente publicada “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos e editada pela Esfera dos Livros. Da sua leitura tirei muitas conclusões interessantes. Uma delas foi a reafirmação do papel histórico de Évora e do Alentejo na consolidação da nossa identidade política enquanto nação independente com mais de oito séculos.
Olhando o futuro próximo a vida continua e o novo capítulo é de desafio e afirmação. Acredito que estaremos à altura da nossa história, no esforço colectivo para lhe darmos forma.
A história de Évora é muito anterior a 1165, ano em que Geraldo Sem Pavor a conquistou aos muçulmanos e a entregou à guarda de D. Afonso Henriques, rei dos portugueses, dando assim um passo importante na afirmação da nossa nacionalidade, proclamada em Zamora em 1143, mas só confirmada em 1179 pela bula papal de Alexandre III.
A importância estratégica de Évora para a consolidação do Reino de Portugal ficou evidente com a atribuição dum foral que a libertava dos jugos senhoriais logo no ano seguinte à sua reconquista, ou seja, em 1166. Essa carta de alforria foi usada com tal maestria política que quando em 1184 uma ofensiva muçulmana fez recuar as linhas de fronteira do reino até às margens do Tejo, Évora resistiu como uma bandeira de portugalidade e manteve-se até aos nossos dias como um dos palcos principais onde se forjou a identidade nacional. A história de Évora e do Alentejo, antes e depois de 1165 são duma extraordinária riqueza.
Cidade cujo centro histórico é património da humanidade, urbe milenar de saber e de poder, Évora e todo o território que a envolve serão de novo marcantes na história das primeiras décadas do novo século e do novo milénio. A oportunidade existe e até 2020 vai ser consolidada como uma realidade evidente e irreversível. Com mais ou menos crise e com maiores ou menores dificuldades, há coisas que estão a ser feitas e bem pela autarquia, pelo governo e pela sociedade civil, que não poderão deixar de ser continuadas e consolidadas no futuro próximo.
A centralidade logística decorrente do entreposto ferroviário que nascerá junto a Évora, o novo cluster aeronáutico, os centros de serviços de alto valor acrescentado atraídos pela centralidade geográfica e pelos centros de saber de que se destaca o prestígio da secular Universidade de Évora, a qualidade de um novo hospital de nova geração, a construção dum novo parque de ciência e tecnologia com os requisitos mais avançados, o nível superior da oferta turística regional já existente e em construção, a proximidade aos novos aeroportos de Alcochete e Beja e a qualidade do aeródromo municipal são apenas alguns dos pilares que me dão a certeza de que esta cidade e esta região vão continuar a marcar a história de Portugal no futuro próximo.
Não farão aliás no futuro nada de muito diferente do que fizeram sempre no passado. Para uma visão mais global da nossa história e tentar ligar algumas pontas, levei para férias a recentemente publicada “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos e editada pela Esfera dos Livros. Da sua leitura tirei muitas conclusões interessantes. Uma delas foi a reafirmação do papel histórico de Évora e do Alentejo na consolidação da nossa identidade política enquanto nação independente com mais de oito séculos.
Olhando o futuro próximo a vida continua e o novo capítulo é de desafio e afirmação. Acredito que estaremos à altura da nossa história, no esforço colectivo para lhe darmos forma.
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"Vida Inacabada"
2010/07/31 23:43
| Diário do Sul, Visto do Alentejo
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Por estas alturas de estio costumo partilhar com os leitores crónicas mais intimistas, nascidas duma análise menos epidérmica da realidade e fruto do reencontro com nós próprios que os períodos de férias tendem a proporcionar. É nesta “categoria” mais pessoal que este texto se enquadra.
O ano que agora termina (seguindo um calendário político e académico) não foi para mim um ano fácil, como aliás também não o foi para a generalidade dos portugueses. Revejo-o como se tivesse sido um pedaço mais escarpado da escalada da vida e sinto-me gratificado por saber que estou agora num patamar mais sólido do meu crescimento pessoal.
Mas ao fazer esta avaliação, absolutamente subjectiva, e ao perceber como as dificuldades nos ajudam a crescer e como os passos lentos são bem mais difíceis do que a corrida desenfreada, destapo a questão chave do sentido da vida, da necessidade de avançar, da caminhada que todos fazemos numa espiral imparável na procura da realização, da imortalidade dos pequenos gestos e dos grandes afectos e da assinatura mais ou menos ténue que ambicionamos deixar como prova de que vivemos.
Tempo de Verão é também tempo de leituras. O título desta crónica reproduz a versão portuguesa do título duma monumental biografia de John.F.Kennedy escrita por Robert Dallek em 2003 e publicada em Portugal pela Bertrand em 2004.
Oferecida por um amigo há já alguns anos, a biografia de Kennedy foi permanecendo imaculada na minha estante dos livros a ler, “defendendo-se” com o peso das suas 500 páginas em letra miudinha.
Mas este final de Julho a dita biografia não escapou à leitura e valeu a pena, não apenas pelo extraordinário acervo de informação histórica que contém, mas sobretudo por mostrar como o carácter, o risco, a capacidade de vencer a adversidade e as limitações próprias, fizeram de John F. Kennedy um mito e uma referência, deixando cobertos pelo pó do anonimato milhares de outros jovens americanos, tão promissores, preparados e afortunados como ele. Um mito muito reforçado pela forma trágica da sua morte e pela consciência plena da vida inacabada que viveu.
O que constato porém, ao ir aprendendo com o que observo e experimento, é que todas as vidas com projecto estão condenadas a ser vidas inacabadas. Há uns anos, prova de imaturidade, costumava dizer que a vida já me tinha dado muito mais do que eu esperava dela e que portanto as contas estavam saldadas entre nós.
Pura ilusão. A vida não é uma simples conta de somar nem tão pouco uma cómoda operação de diminuir. Quanto mais a vida nos dá mais de nós exige. É uma espiral permanente para ser saboreada e sofrida até à última gota, e embora por vezes seja pareça mais tentador parar do que enfrentar os esticões e as feridas da luta, são esses esticões e essas feridas que nos dão força e ânimo para fazer da existência uma caminho com sentido.
O exemplo de Kennedy é apenas a maior hipérbole desta intuição simples que escolhi para partilhar convosco numa crónica em registo estival, mas ainda assim não recomendável para consciências excessivamente adormecidas ou acomodadas. Mas essas consciências certamente não a leram até ao fim. Para eles esta é apenas uma crónica inacabada.
O ano que agora termina (seguindo um calendário político e académico) não foi para mim um ano fácil, como aliás também não o foi para a generalidade dos portugueses. Revejo-o como se tivesse sido um pedaço mais escarpado da escalada da vida e sinto-me gratificado por saber que estou agora num patamar mais sólido do meu crescimento pessoal.
Mas ao fazer esta avaliação, absolutamente subjectiva, e ao perceber como as dificuldades nos ajudam a crescer e como os passos lentos são bem mais difíceis do que a corrida desenfreada, destapo a questão chave do sentido da vida, da necessidade de avançar, da caminhada que todos fazemos numa espiral imparável na procura da realização, da imortalidade dos pequenos gestos e dos grandes afectos e da assinatura mais ou menos ténue que ambicionamos deixar como prova de que vivemos.
Tempo de Verão é também tempo de leituras. O título desta crónica reproduz a versão portuguesa do título duma monumental biografia de John.F.Kennedy escrita por Robert Dallek em 2003 e publicada em Portugal pela Bertrand em 2004.
Oferecida por um amigo há já alguns anos, a biografia de Kennedy foi permanecendo imaculada na minha estante dos livros a ler, “defendendo-se” com o peso das suas 500 páginas em letra miudinha.
Mas este final de Julho a dita biografia não escapou à leitura e valeu a pena, não apenas pelo extraordinário acervo de informação histórica que contém, mas sobretudo por mostrar como o carácter, o risco, a capacidade de vencer a adversidade e as limitações próprias, fizeram de John F. Kennedy um mito e uma referência, deixando cobertos pelo pó do anonimato milhares de outros jovens americanos, tão promissores, preparados e afortunados como ele. Um mito muito reforçado pela forma trágica da sua morte e pela consciência plena da vida inacabada que viveu.
O que constato porém, ao ir aprendendo com o que observo e experimento, é que todas as vidas com projecto estão condenadas a ser vidas inacabadas. Há uns anos, prova de imaturidade, costumava dizer que a vida já me tinha dado muito mais do que eu esperava dela e que portanto as contas estavam saldadas entre nós.
Pura ilusão. A vida não é uma simples conta de somar nem tão pouco uma cómoda operação de diminuir. Quanto mais a vida nos dá mais de nós exige. É uma espiral permanente para ser saboreada e sofrida até à última gota, e embora por vezes seja pareça mais tentador parar do que enfrentar os esticões e as feridas da luta, são esses esticões e essas feridas que nos dão força e ânimo para fazer da existência uma caminho com sentido.
O exemplo de Kennedy é apenas a maior hipérbole desta intuição simples que escolhi para partilhar convosco numa crónica em registo estival, mas ainda assim não recomendável para consciências excessivamente adormecidas ou acomodadas. Mas essas consciências certamente não a leram até ao fim. Para eles esta é apenas uma crónica inacabada.